14 de dezembro de 2009

Um clube de vantagens salariais

O IPEA, instituto oficial de justificativas econômicas do governo, acabou de publicar mais um estudo peculiar sobre a 'desigualdade de renda' no país.

Quando o IPEA observa o fato de que um empregado sem especialização recebe no Brasil 600 R$, enquanto um especializado consegue uns 2500 R$, e um profissional com pós-graduação e um currículo quente consegue uns 5000R$,
chamam a isto de 'desigualdade de renda'.

Aparentemente o IPEA está atento aos 'rumores' de que boa parte da população considera os salários dos funcionários públicos muito acima do setor privado. Os empregos cobiçados não são os dos especialistas com pós-graduação, e sim os dos concurseiros que aterrisaram na oportunidade certa no 'setor público'.

Mas neste caso não há desigualdade. Segundo o IPEA, há uma 'vantagem salarial' no setor público. Como eles adoram brincar de newspeak...


Mais ainda, esta 'vantagem salarial' se explica pelo bom 'nível de qualificação' do servidor público. Ah bom, ainda bem que existe o novo IPEA para tranquilizar-nos.

Obviamente, como qualquer pessoa pode observar, funcionários públicos no Brasil são casta privilegiada, especialmente os federais. O funcionalismo público no Brasil se tornou, no decorrer da república, um grande clube de benefícios.

Com a adoção do concurso público, complementando os tradicionais métodos de entrada, o da indicação política e do apadrinhamento, a casta legitimou seus privilégios e regimes diferenciados. Quando você os critica, sempre alguém diz 'e porque você não faz concurso público?'. Esta é a solução do brasileiro para tais problemas éticos. Junte-se a eles!

O concurso público trouxe sem dúvida transparência. Mas gerou um efeito inusitado: o grande ingresso de pessoas estudiosas sem rumo profissional ou sem oportunidades de trabalho mais vantajosas. Até porque é difícil o setor privado conseguir cobrir a oferta do setor público, tendo que pagar em encargos para o estado um valor igual ao que este concurseiro receberia.

Estas pessoas são portanto retiradas do mercado de trabalho real, onde poderiam desempenhar funções úteis, para viver no mundo de fantasia do serviço público, onde, se não lidarem diretamente com a população, irão desempenhar para o resto de suas vidas algum ritual burocrático. Esse prospecto não atrai muito pessoas bem formadas. Mas o salário e benefícios, sim.

Em outra 'pesquisa' do IPEA, eles apontam que o gasto do governo com o funcionalismo público está em linha com o dos países ricos. Pena que o Brasil não esteja neste patamar econômico ainda. Mas daqui a pouco o IPEA faz outra pesquisa e diz que os funcionários públicos já fizeram sua parte. Já estão gastando! A iniciativa privada é que não fez a parte dela ainda, que é a de pagar pelo serviço público norueguês e expandir a economia do país em ritmo chinês.

Qualquer pessoa de bom senso também pode observar que nosso funcionalismo está longe de atingir a eficiência norueguesa. Mas o IPEA nos tranquiliza: de acordo com alguma fórmula boa o suficiente para o IPEA, a 'produtividade do serviço público' bateu a do setor privada. E por aí vai.

O IPEA se transformou nisso, um patético órgão de propaganda na mão de cabeças atrasadas. Seus estudos estão cada vez mais parecidos com os estudos econômicos de sindicatos, e revelam apenas a agenda de quem pilota tal instituto.

Um comentário:

Andrey disse...

é.... quando o concurso público se torna a alternativa (quase que) única da população, algo esta errado nesse país.