Diálogo de surdos?
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101010/not_imp623099,0.php#noticia
Comento:
De fato a memória deste período precisa ser resgatada. Apesar do plano real ter trazido muitos benefícios imediatos à maior parte da população, o governo Fernando Henrique, no qual Pedro Malan deu sua enorme contribuição, teve que lidar com problemas de reorganização do estado muito grandes e dolorosos, mas que colocaram o país na rota certa, com os frutos sendo colhidos ao longo do tempo. O maior deles: uma moeda estável, os efeitos de redução da pobreza consequentes disso, e um sistema financeiro mais sólido do que o dos países desenvolvidos.
Nós certamente pagamos um preço por estes anos de ajuste. Não foi fácil. Valeu à pena? CERTAMENTE QUE SIM.
É ridículo o governo atual vir agora colocar propaganda na TV comparando o Brasil que precisava de resgate do FMI com o Brasil de agora que 'empresta ao FMI'. São situações diferentes. E ao mesmo tempo que colhem os frutos das reformas passadas, se encarregam de desfazê-las, relaxando nos últimos anos com as contas públicas, e usando emissão de dívida em real, 10x mais cara que dívida externa, para financiar a fatia estatal e do partido em estatais e outros aportes de investimento.
O Brasil de hoje não tem grandes problemas com as suas contas, se formos comparar com o tsunami de outras épocas. Mas houve uma deterioração clara e o futuro governo já poderá sentir o efeito desta 'herança maldita' do PT. Lula é um bom surfista, e não é um bom administrador.
Lula deu uma entrevista à The Economist onde reclamou muito dos grandes entraves ao investimento, mesmo estatal, no Brasil. Mas qual é o legado administrativo dele sobre este tema que ele conheceu durante sua administração? Nada, absolutamente nada. Não teve coragem de reformar, surfou no bom momento do país e se preocupou com a popularidade momentânea acima de tudo.
E tentaram conciliar um movimento populista de massas com os interesses radicais do partido. Tentaram deixar um legado nefasto, que foi o do PDH3 e outros atentados contra a liberdade no estilo 'assinei e não li'. Entre outros atropelos, este plano se chocava contra valores conservadores da sociedade brasileira. Então agora que não venham chorar sobre o leite derramado.
11 de outubro de 2010
A jaguatirica também quer encarar o tigre
Alguns comentaristas na imprensa vem pedindo apoio às sanções contra a China. É bastante evidente o interesse do exportador industrial ao se unir nesta campanha contra as intervenções chinesas. Mas é um erro brigar com cachorro-ou felino- grande sem ter porque.
Senão vejamos. Qual é o jogo que a China vem jogando nas últimas décadas?
Subsidiar o consumo dos consumidores americanos e europeus, exportando para estas zonas mais do que importa, turbinando seu processo de industrialização voltada à exportação e acumulando um balanço positivo ano após ano. Nada diferente do 'modelo asiático' que por anos foi a base do crescimento do Japão e da Coréia, com forte intervencionismo estatal, mas com empresas e conglomerados privados, e consumidores estrangeiros fazendo a seleção de mercado, para não cair naquele protecionismo de mercado interno sem competitividade que conhecemos tão bem.
Como sob este modelo há balanço comercial positivo, o Yuan se valorizaria naturalmente. Aí entra a manipulação do governo Chinês, que enxuga os dólares que entram na China, evitando esta desvalorização, dificultando a vida do chinês e ao mesmo tempo formando uma imensa reserva de títulos do governo americano. Exatamente como foi feito por muito tempo aqui no Brasil. Só que os fluxos positivos deles são enormes, e a reserva, a primeira ou segunda maior do mundo.
Isto cria enorme demanda por títulos americanos, o que abaixa as taxas de juros nos EUA, já com viés de baixa pela simples entrada de produtos baratos.
Resultado: A China manda produtos para eles e recebe títulos da dívida dos governos de volta. Um modelo paradoxal onde o governo do país pobre em desenvolvimento privilegia a indústria exportadora às custas de encarecer o nível de vida de sua própria população, que trabalha extra e acumula poupanças forçadas que financiam os projetos e o estilo de vida mais avançados dos países mais ricos.
Tudo estava bom e ninguém reclamava tanto antes da crise. Porque todos gostam de produtos baratos e juros baixos, certo? Todos estes containeres de produtos vão parar em 'Walmarts' e subsidiam a vida dos americanos, especialmente os mais pobres. O Fed cumpre cegamente seu papel no sistema monetário, que é evitar que haja queda de preços, e com isso dá-lhe botar os juros perto de zero e criar crédito no sistema bancário.
Só que no atual nível de desenvolvimento dos EUA e Europa, estes juros baixos distorceram fortemente a economia. Isto sempre acontece, mas no caso deles a distorção foi gigante. E causou mudanças de comportamento econômico bastante grandes, e em geral negativas. Sem investimentos viáveis que possam trazer um retorno, os bancos usaram estes juros baixos para financiar bolha atrás de bolha, e comportamentos irresponsáveis e de alto-risco.
Não é de se admirar que algumas gerações deixaram de lado profissões mais técnicas para fazer carreira em algum setor bolha. Ou que muitos passassem a viver como proprietário de imóveis, na ciranda de compra-vende e embolsando sempre uma diferença positiva.
O sistema monetário moderno funciona assim, e, sem querer me aprofundar neste tema, a razão da crise está em problemas técnicos deste sistema, que é um sistema inventado. É um sistema que funciona no médio prazo, por uns 30-50 anos. Mas não é um sistema robusto para durar 100 anos. O sistema monetário natural do mundo sempre foi o uso de commodities metálicas como ouro e prata.
Para finalizar, há um país na América do Sul que não possui poupanças, que possui taxas de juros altas como consequência disso, e que tem grandes oportunidades de investimento que não podem ser todas atendidas graças à escassez de poupança. Este país é uma potência no setor de commodities minerais e agrícolas, e tem alguns dos produtos mais desejados pela China, como alimentos, minério e energia.
O papel dos EUA como parceiro comercial brasileiro ainda é importante, mas deve continuar em declínio graças à crise. Enquanto o papel da China só tende a crescer.
Em uma situação dessas falar em 'usar arsenal monetário do Brasil contra China' é, fazendo trocadilho, dar um verdadeiro tiro no pé.
O grande medo é do Brasil se aproximar da China e ficar preso no papel de fornecedor de matéria-prima. Não acredito que seja o caso, principalmente se resolvermos nossos próprios problemas.
E tem um motivo importante pelo qual o Brasil fica na exportação básica. Porque é difícil de importar componentes, agregar valor e reexportar. É um modelo alienígena para o industrial brasileiro, conclamado a nacionalizar toda a cadeira, e acostumado a reinventar a roda, localizar componentes já aqui no Brasil, e vender produtos mais-ou-menos para o mercado local. Isso quando já não aderiram ao novo modelo de 'nacionalizar' os produtos chineses mais defasados colocando um selinho em cima.
Este modelo de importar o melhor e mais barato e agregar valor é exatamente no que os chineses se especializaram, e podíamos fazer o mesmo por aqui. Se observarmos dados industriais, veremos que a China importa muitos componentes do Japão, Malásia, Coréia. Porque este modelo é o que funciona para a indústria moderna.
Portanto acredito que devíamos nos aproximar da China, e não entrar nessa briga desnecessariamente.
Um primeiro passo seria apoiar o comércio com a China em Yuan e Reais, compra de títulos brasileiros pelo governo da China, pacto de livre-comércio, com a entrada de componentes baratos para que a nossa indústria, cujo desmoronamento parece inevitável, possa se reconstruir sob um novo sistema de produção mais moderno, voltado ao mercado externo e com foco em adicionar valor sobre componentes comoditizados.
Senão vejamos. Qual é o jogo que a China vem jogando nas últimas décadas?
Subsidiar o consumo dos consumidores americanos e europeus, exportando para estas zonas mais do que importa, turbinando seu processo de industrialização voltada à exportação e acumulando um balanço positivo ano após ano. Nada diferente do 'modelo asiático' que por anos foi a base do crescimento do Japão e da Coréia, com forte intervencionismo estatal, mas com empresas e conglomerados privados, e consumidores estrangeiros fazendo a seleção de mercado, para não cair naquele protecionismo de mercado interno sem competitividade que conhecemos tão bem.
Como sob este modelo há balanço comercial positivo, o Yuan se valorizaria naturalmente. Aí entra a manipulação do governo Chinês, que enxuga os dólares que entram na China, evitando esta desvalorização, dificultando a vida do chinês e ao mesmo tempo formando uma imensa reserva de títulos do governo americano. Exatamente como foi feito por muito tempo aqui no Brasil. Só que os fluxos positivos deles são enormes, e a reserva, a primeira ou segunda maior do mundo.
Isto cria enorme demanda por títulos americanos, o que abaixa as taxas de juros nos EUA, já com viés de baixa pela simples entrada de produtos baratos.
Resultado: A China manda produtos para eles e recebe títulos da dívida dos governos de volta. Um modelo paradoxal onde o governo do país pobre em desenvolvimento privilegia a indústria exportadora às custas de encarecer o nível de vida de sua própria população, que trabalha extra e acumula poupanças forçadas que financiam os projetos e o estilo de vida mais avançados dos países mais ricos.
Tudo estava bom e ninguém reclamava tanto antes da crise. Porque todos gostam de produtos baratos e juros baixos, certo? Todos estes containeres de produtos vão parar em 'Walmarts' e subsidiam a vida dos americanos, especialmente os mais pobres. O Fed cumpre cegamente seu papel no sistema monetário, que é evitar que haja queda de preços, e com isso dá-lhe botar os juros perto de zero e criar crédito no sistema bancário.
Só que no atual nível de desenvolvimento dos EUA e Europa, estes juros baixos distorceram fortemente a economia. Isto sempre acontece, mas no caso deles a distorção foi gigante. E causou mudanças de comportamento econômico bastante grandes, e em geral negativas. Sem investimentos viáveis que possam trazer um retorno, os bancos usaram estes juros baixos para financiar bolha atrás de bolha, e comportamentos irresponsáveis e de alto-risco.
Não é de se admirar que algumas gerações deixaram de lado profissões mais técnicas para fazer carreira em algum setor bolha. Ou que muitos passassem a viver como proprietário de imóveis, na ciranda de compra-vende e embolsando sempre uma diferença positiva.
O sistema monetário moderno funciona assim, e, sem querer me aprofundar neste tema, a razão da crise está em problemas técnicos deste sistema, que é um sistema inventado. É um sistema que funciona no médio prazo, por uns 30-50 anos. Mas não é um sistema robusto para durar 100 anos. O sistema monetário natural do mundo sempre foi o uso de commodities metálicas como ouro e prata.
Para finalizar, há um país na América do Sul que não possui poupanças, que possui taxas de juros altas como consequência disso, e que tem grandes oportunidades de investimento que não podem ser todas atendidas graças à escassez de poupança. Este país é uma potência no setor de commodities minerais e agrícolas, e tem alguns dos produtos mais desejados pela China, como alimentos, minério e energia.
O papel dos EUA como parceiro comercial brasileiro ainda é importante, mas deve continuar em declínio graças à crise. Enquanto o papel da China só tende a crescer.
Em uma situação dessas falar em 'usar arsenal monetário do Brasil contra China' é, fazendo trocadilho, dar um verdadeiro tiro no pé.
O grande medo é do Brasil se aproximar da China e ficar preso no papel de fornecedor de matéria-prima. Não acredito que seja o caso, principalmente se resolvermos nossos próprios problemas.
E tem um motivo importante pelo qual o Brasil fica na exportação básica. Porque é difícil de importar componentes, agregar valor e reexportar. É um modelo alienígena para o industrial brasileiro, conclamado a nacionalizar toda a cadeira, e acostumado a reinventar a roda, localizar componentes já aqui no Brasil, e vender produtos mais-ou-menos para o mercado local. Isso quando já não aderiram ao novo modelo de 'nacionalizar' os produtos chineses mais defasados colocando um selinho em cima.
Este modelo de importar o melhor e mais barato e agregar valor é exatamente no que os chineses se especializaram, e podíamos fazer o mesmo por aqui. Se observarmos dados industriais, veremos que a China importa muitos componentes do Japão, Malásia, Coréia. Porque este modelo é o que funciona para a indústria moderna.
Portanto acredito que devíamos nos aproximar da China, e não entrar nessa briga desnecessariamente.
Um primeiro passo seria apoiar o comércio com a China em Yuan e Reais, compra de títulos brasileiros pelo governo da China, pacto de livre-comércio, com a entrada de componentes baratos para que a nossa indústria, cujo desmoronamento parece inevitável, possa se reconstruir sob um novo sistema de produção mais moderno, voltado ao mercado externo e com foco em adicionar valor sobre componentes comoditizados.
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9 de outubro de 2010
Estão cutucando o tigre com a vara curta
Vou deixar um palpite aqui que causaria muito, muito mais pânico do que a interferência do governo da China em sua moeda, que realmente existe.
Já pensaram o que aconteceria se as relações comerciais da China com os EUA esfriarem bastante por causa de barreiras comerciais? Digamos uns 5-10 anos lá pra frente. Aí eles não vão ter qualquer incentivo para comprar ou manter sua posição em títulos americanos. Eles já tem comprado outros ativos no mundo todo nos últimos anos, com grande preferência por ativos tangíveis.
Só que eles vão ter que converter rápido 2 tri $ de títulos americanos em outros ativos, principalmente ativos reais, para não levarem um calote americano ou dos outros que vão de embalo atrás da desvalorização. Estou projetando este cenário de beggar-thy-neighbour e de conflito entre os bancos centrais e os governos para uns anos na frente.
Aí imaginem a indignação americana ao ver a américa sendo comprada pelo governo da China, e o repeteco piorado da mesma coisa que aconteceu nos anos 80 com investidores japoneses comprando grandes marcas americanas.
Imaginem que os títulos americanos hoje são em grande parte lastreados por propriedades imobiliárias. Será que quem tem grande parte destes títulos não pode querer trocar pelo colateral sob risco de desvalorização?
Imaginem que políticos americanos façam qualquer coisa que impeça o governo da China de trocar títulos americanos em queda por ativos reais americanos. Imaginem que os outros sigam o exemplo americano, e coloquem legislações como as que vemos no Brasil, que limitem a venda de ativos para estrangeiros, ou até a total proibição.
A China é uma potência militar e econômica, e tudo indica que será mais ainda uma década lá na frente. E todas as vezes na história que uma potência econômica viu seus direitos de propriedade questionados houve tensão militar e geopolítica.
Imaginem os países ao redor da China como Coréia do Sul, Japão, Austrália, sem o poder americano para protegê-los e com um vizinho agressivo ao ver suas reservas de décadas se desvalorizando, uma situação doméstica precária causada pela perda de mercados e de reservas, e um boicote mundial à compra de ativos feita pela China.
Já pensaram o que aconteceria se as relações comerciais da China com os EUA esfriarem bastante por causa de barreiras comerciais? Digamos uns 5-10 anos lá pra frente. Aí eles não vão ter qualquer incentivo para comprar ou manter sua posição em títulos americanos. Eles já tem comprado outros ativos no mundo todo nos últimos anos, com grande preferência por ativos tangíveis.
Só que eles vão ter que converter rápido 2 tri $ de títulos americanos em outros ativos, principalmente ativos reais, para não levarem um calote americano ou dos outros que vão de embalo atrás da desvalorização. Estou projetando este cenário de beggar-thy-neighbour e de conflito entre os bancos centrais e os governos para uns anos na frente.
Aí imaginem a indignação americana ao ver a américa sendo comprada pelo governo da China, e o repeteco piorado da mesma coisa que aconteceu nos anos 80 com investidores japoneses comprando grandes marcas americanas.
Imaginem que os títulos americanos hoje são em grande parte lastreados por propriedades imobiliárias. Será que quem tem grande parte destes títulos não pode querer trocar pelo colateral sob risco de desvalorização?
Imaginem que políticos americanos façam qualquer coisa que impeça o governo da China de trocar títulos americanos em queda por ativos reais americanos. Imaginem que os outros sigam o exemplo americano, e coloquem legislações como as que vemos no Brasil, que limitem a venda de ativos para estrangeiros, ou até a total proibição.
A China é uma potência militar e econômica, e tudo indica que será mais ainda uma década lá na frente. E todas as vezes na história que uma potência econômica viu seus direitos de propriedade questionados houve tensão militar e geopolítica.
Imaginem os países ao redor da China como Coréia do Sul, Japão, Austrália, sem o poder americano para protegê-los e com um vizinho agressivo ao ver suas reservas de décadas se desvalorizando, uma situação doméstica precária causada pela perda de mercados e de reservas, e um boicote mundial à compra de ativos feita pela China.
8 de outubro de 2010
“Os Institutos de pesquisa devem uma explicação”
EXCLUSIVA PARA O TRILHA LIBERAL
A cobrança é do professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Manuel Rosa de Oliveira Lino, responsável pela disciplina de Estatística e com experiência em pesquisas eleitorais municipais e estaduais em Santa Catarina no período entre 1982 e 2002. Formado em Matemática e com doutorado em Engenharia de Produção, o professor Manuel Lino faz uma dura cobrança no trabalho realizado pelos institutos de pesquisa nestas eleições.

Podemos afirmar que os Institutos de Pesquisa foram os grandes derrotados nesta eleição?
Eu diria que sim. Os institutos que deveriam dar uma opinião abalizada daquilo que é a tendência do eleitorado e com certeza erraram.
Houve má fé ou incompetência?
Eu não posso afirmar, mas a gente sabe que o brasileiro não gosta de torcer para o time que está perdendo. E isso gera algum dano para o político que está na segunda colocação. Aquele que as pesquisas apontam como primeiro, tendo o seu percentual majorado, isso sempre leva mais pessoas a votarem nele.
Além da influência das pesquisas sobre o eleitor, se nota também que muitos candidatos a deputado acabam abandonando os candidatos da majoritária para evitar a vinculação com quem aparentemente perderia as eleições. O senhor concorda com esse efeito das pesquisas?
Sim, houve isso declaradamente, em vários Estados, inclusive em Santa Catarina.
Recentemente surgiram vários institutos de pesquisa, o que em um primeiro momento parece bom, pois haveria confrontação nos resultados, mas as pesquisas, em geral, apresentaram os mesmos números. O que aconteceu?
Meu sentimento é que quando um instituto sai na frente e publica uma pesquisa ninguém vai divulgar um resultado diferente. De lá para cá, todos os institutos publicaram números quase que paralelos. Não houve alterações significativas. E por que a Dilma começou a cair nas pesquisas? Porque nenhum instituto teria como aguentar aquele percentual de votos. Aqueles números não eram viáveis. Assim, a partir de um determinado momento começou a se trazer os números para um resultado que indicava a possibilidade de segundo turno. Mas isso só foi indicado na última pesquisa.
A sensação que fica é que, só é possível verificar que os institutos de pesquisa erraram quando ocorreu a eleição. Durante todo o período anterior os institutos podem direcionar os números até um valor perto do real no final da eleição? Eles possuem esses dados?
Meu sentimento, novamente, é que eles ajustam os números no final aos dados que eles tinham. Afirmo que há um grande indício de que pode ter havido isso.
As diferenças no cenário estadual foram gritantes. Tudo indicava que haveria segundo turno. A candidata Ideli, por exemplo, reclamou muito. Ela tem razão?
O aspecto curioso é que a Ideli reclamou pra ela, mas não reclamou para Dilma! O que cada um ganha ou perde é que se reflete na reclamação. O Colombo teria mais razão para reclamar. O Instituto pode errar também, por isso existe a margem de erro. A não ser que ocorra algum fato extraordinário, mas isso não ocorreu. É muito provável que eles não trabalharam com amostras adequadas. Algum problema houve.
Há várias eleições atrás, um instituto de pesquisa publicou que em um município da Grande Florianópolis, determinado candidato tinha mais de 50% dos votos. Mas a sua pesquisa indicava empate técnico com vantagem para o outro candidato. O que ocorreu nesse caso?
Final de campanha todo mundo precisa mostrar um resultado favorável. Na ocasião foi apresentado um resultado, e eu disse que não eram verdadeiros, pois nós tínhamos uma pesquisa paralela com dados diferentes. Na época houve a contestação dos advogados do partido e eles questionaram o trabalho da universidade. Mas na eleição os números das urnas avalizaram o nosso trabalho. Na nossa pesquisa, a amostra tem que ser significativa e representativa sem pender para nenhum lado. Desta forma, dificilmente a gente erra no resultado de uma pesquisa. Um erro de 3% é aceitável, mas errar 10% não tem como. Tem que errar muito durante a pesquisa para chegar nesse número. Por que esse ano teve tanto erro? Os Institutos de pesquisa devem uma explicação.
A cobrança é do professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Manuel Rosa de Oliveira Lino, responsável pela disciplina de Estatística e com experiência em pesquisas eleitorais municipais e estaduais em Santa Catarina no período entre 1982 e 2002. Formado em Matemática e com doutorado em Engenharia de Produção, o professor Manuel Lino faz uma dura cobrança no trabalho realizado pelos institutos de pesquisa nestas eleições.

Podemos afirmar que os Institutos de Pesquisa foram os grandes derrotados nesta eleição?
Eu diria que sim. Os institutos que deveriam dar uma opinião abalizada daquilo que é a tendência do eleitorado e com certeza erraram.
Houve má fé ou incompetência?
Eu não posso afirmar, mas a gente sabe que o brasileiro não gosta de torcer para o time que está perdendo. E isso gera algum dano para o político que está na segunda colocação. Aquele que as pesquisas apontam como primeiro, tendo o seu percentual majorado, isso sempre leva mais pessoas a votarem nele.
Além da influência das pesquisas sobre o eleitor, se nota também que muitos candidatos a deputado acabam abandonando os candidatos da majoritária para evitar a vinculação com quem aparentemente perderia as eleições. O senhor concorda com esse efeito das pesquisas?
Sim, houve isso declaradamente, em vários Estados, inclusive em Santa Catarina.
Recentemente surgiram vários institutos de pesquisa, o que em um primeiro momento parece bom, pois haveria confrontação nos resultados, mas as pesquisas, em geral, apresentaram os mesmos números. O que aconteceu?
Meu sentimento é que quando um instituto sai na frente e publica uma pesquisa ninguém vai divulgar um resultado diferente. De lá para cá, todos os institutos publicaram números quase que paralelos. Não houve alterações significativas. E por que a Dilma começou a cair nas pesquisas? Porque nenhum instituto teria como aguentar aquele percentual de votos. Aqueles números não eram viáveis. Assim, a partir de um determinado momento começou a se trazer os números para um resultado que indicava a possibilidade de segundo turno. Mas isso só foi indicado na última pesquisa.
A sensação que fica é que, só é possível verificar que os institutos de pesquisa erraram quando ocorreu a eleição. Durante todo o período anterior os institutos podem direcionar os números até um valor perto do real no final da eleição? Eles possuem esses dados?
Meu sentimento, novamente, é que eles ajustam os números no final aos dados que eles tinham. Afirmo que há um grande indício de que pode ter havido isso.
As diferenças no cenário estadual foram gritantes. Tudo indicava que haveria segundo turno. A candidata Ideli, por exemplo, reclamou muito. Ela tem razão?
O aspecto curioso é que a Ideli reclamou pra ela, mas não reclamou para Dilma! O que cada um ganha ou perde é que se reflete na reclamação. O Colombo teria mais razão para reclamar. O Instituto pode errar também, por isso existe a margem de erro. A não ser que ocorra algum fato extraordinário, mas isso não ocorreu. É muito provável que eles não trabalharam com amostras adequadas. Algum problema houve.
Há várias eleições atrás, um instituto de pesquisa publicou que em um município da Grande Florianópolis, determinado candidato tinha mais de 50% dos votos. Mas a sua pesquisa indicava empate técnico com vantagem para o outro candidato. O que ocorreu nesse caso?
Final de campanha todo mundo precisa mostrar um resultado favorável. Na ocasião foi apresentado um resultado, e eu disse que não eram verdadeiros, pois nós tínhamos uma pesquisa paralela com dados diferentes. Na época houve a contestação dos advogados do partido e eles questionaram o trabalho da universidade. Mas na eleição os números das urnas avalizaram o nosso trabalho. Na nossa pesquisa, a amostra tem que ser significativa e representativa sem pender para nenhum lado. Desta forma, dificilmente a gente erra no resultado de uma pesquisa. Um erro de 3% é aceitável, mas errar 10% não tem como. Tem que errar muito durante a pesquisa para chegar nesse número. Por que esse ano teve tanto erro? Os Institutos de pesquisa devem uma explicação.
7 de outubro de 2010
A reação conservadora
Durante estes últimos anos, o PT atentou contra a liberdade algumas vezes. Certo da popularidade do presidente e governando um país praticamente decapitado, cometeram um dos maiores atentados às liberdades adquiridas através do PNDH, este remédio indigesto preparado por militantes radicais que não representam o pensamento de sequer 1% dos brasileiros, que em geral são bastante conservadores.
A corrupção, como sabemos, não chega a tirar votos. As perdas de liberdade, nossa lenta caminhada para um autoritarismo paternal, o aparelhamento estatal e a forte intervenção econômica em proveito próprio também não causam revolta, exceto nos mais educados.
Mas ao tentar atropelar a sociedade com sua histórica posição a favor do aborto, o PT possivelmente selou o destino desta campanha, indo contra um valor fundamental do seu eleitorado.
A posição do partido inclui forte defesa dos 'direitos reprodutivos da mulher', e tão forte é esta defesa que se posicionar abertamente contra o aborto causou a expulsão de dois membros do partido.
http://www.direitoshumanos.etc.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4500:pt-suspende-deputados-contrario-sos-direitos-sexuais-e-reprodutivos&catid=22:direitos-sexuais&Itemid=171
Ultimamente eles tentaram esconder esta posição, cumprindo o ritual de deletar documentos e referências e lançar declarações contrárias e as tradicionais acusações de golpismo, boataria e agora uma novidade, interferência com o voto livre. Como se os religiosos não tivessem direito à saber qual é a posição do partido em relação ao tema mais caro para eles.
Mas infelizmente para o PT há o 'partido do YouTube golpista'. Pode-se facilmente encontrar vídeos de não muito tempo atrás em que Dilma defendia a descriminalização do aborto. Não estamos discutindo aqui a questão em si, em que liberais também se dividem. Mas é assunto que no mínimo deveria ser abordado de maneira consistente, e não de acordo com as conveniências de última hora.
Entretanto, o que se vê é uma rápida conversão religiosa de Dilma Rousseff. E como Serra passa a exibir cada vez mais sua família, é hora dos marqueteiros arrumarem também uma família para Dilma.
http://ultimosegundo.ig.com.br/eleicoes/na+tv+serra+mostra+familia+e+dilma+lula/n1237787812787.html
A influência de temas religiosos e culturais na campanha não é coisa só do Brasil. Como sabemos isto é muito forte nos EUA. Na Polônia, país fortemente católico, toda campanha política se transforma em um debate sobre o aborto.
A corrupção, como sabemos, não chega a tirar votos. As perdas de liberdade, nossa lenta caminhada para um autoritarismo paternal, o aparelhamento estatal e a forte intervenção econômica em proveito próprio também não causam revolta, exceto nos mais educados.
Mas ao tentar atropelar a sociedade com sua histórica posição a favor do aborto, o PT possivelmente selou o destino desta campanha, indo contra um valor fundamental do seu eleitorado.
A posição do partido inclui forte defesa dos 'direitos reprodutivos da mulher', e tão forte é esta defesa que se posicionar abertamente contra o aborto causou a expulsão de dois membros do partido.
http://www.direitoshumanos.etc.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4500:pt-suspende-deputados-contrario-sos-direitos-sexuais-e-reprodutivos&catid=22:direitos-sexuais&Itemid=171
Ultimamente eles tentaram esconder esta posição, cumprindo o ritual de deletar documentos e referências e lançar declarações contrárias e as tradicionais acusações de golpismo, boataria e agora uma novidade, interferência com o voto livre. Como se os religiosos não tivessem direito à saber qual é a posição do partido em relação ao tema mais caro para eles.
Mas infelizmente para o PT há o 'partido do YouTube golpista'. Pode-se facilmente encontrar vídeos de não muito tempo atrás em que Dilma defendia a descriminalização do aborto. Não estamos discutindo aqui a questão em si, em que liberais também se dividem. Mas é assunto que no mínimo deveria ser abordado de maneira consistente, e não de acordo com as conveniências de última hora.
Entretanto, o que se vê é uma rápida conversão religiosa de Dilma Rousseff. E como Serra passa a exibir cada vez mais sua família, é hora dos marqueteiros arrumarem também uma família para Dilma.
http://ultimosegundo.ig.com.br/eleicoes/na+tv+serra+mostra+familia+e+dilma+lula/n1237787812787.html
A influência de temas religiosos e culturais na campanha não é coisa só do Brasil. Como sabemos isto é muito forte nos EUA. Na Polônia, país fortemente católico, toda campanha política se transforma em um debate sobre o aborto.
6 de outubro de 2010
Peter Schiff explica a guerra cambial
Para entender melhor a guerra cambial e a desvalorização competitiva, recomendo fortemente a leitura destes artigo do Peter Schiff, com tradução do Mises Brasil.
http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=800
http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=800
4 de outubro de 2010
Um candidato que falou de economia
Teve um. O candidato Plínio, que teve uma única proposta apresentada, em todo o tempo em que foi exposto em debates. Dar o calote na dívida. Sim, na interna também. Você investe na renda fixa? Tomou, burguês.
Plínio é ex-funça, declarou dois milhões de patrimônio. Mas, tirando esse contraste entre comunista rico e liberal pobre, assim como a gente, ele também não gosta da explosão da dívida pública.
Só que Plínio encontrou uma pedra filosofal muito melhor ainda do que a do Mantega. Uma verdadeira pedra de crack: calote geral. Deve ser isso que serve de fonte da juventude para o agitado octagenário. Pelo menos, se der errado não lhe sobra lá muitas décadas mesmo!
Que beleza que seria uma proposta dessas. Não estaríamos mais discutindo os problemas da dívida pública, e sim como obter comida, velas e outros mantimentos. E pensar que a CNBB já apoiou uma proposta dessas...
O PSOL ficaria feliz de destruir o capitalismo, voltando no tempo para corrigir este erro histórico. Voltaríamos àquela etapa anterior do desenvolvimento econômico, antes do surgimento da moeda. Construiríamos as bases de uma economia solidária centrada no escambo.
Plínio é a prova que estamos vendo um grande intercâmbio nestas eleições.
Aquele entre a classe política e a classe dos palhaços.
Se Plínio quisesse implementar algo muito mais fácil não precisaria de tanta bravata. Muito melhor que dar calote é desvalorizar a dívida. Bastaria convidar Paul Krugman para ser assessor econômico, e iniciar o 'afrouxamento monetário' aqui no Brasil. Nome de moeda para colocar no que sobrar depois não ia faltar.
Plínio é ex-funça, declarou dois milhões de patrimônio. Mas, tirando esse contraste entre comunista rico e liberal pobre, assim como a gente, ele também não gosta da explosão da dívida pública.
Só que Plínio encontrou uma pedra filosofal muito melhor ainda do que a do Mantega. Uma verdadeira pedra de crack: calote geral. Deve ser isso que serve de fonte da juventude para o agitado octagenário. Pelo menos, se der errado não lhe sobra lá muitas décadas mesmo!
Que beleza que seria uma proposta dessas. Não estaríamos mais discutindo os problemas da dívida pública, e sim como obter comida, velas e outros mantimentos. E pensar que a CNBB já apoiou uma proposta dessas...
O PSOL ficaria feliz de destruir o capitalismo, voltando no tempo para corrigir este erro histórico. Voltaríamos àquela etapa anterior do desenvolvimento econômico, antes do surgimento da moeda. Construiríamos as bases de uma economia solidária centrada no escambo.
Plínio é a prova que estamos vendo um grande intercâmbio nestas eleições.
Aquele entre a classe política e a classe dos palhaços.
Se Plínio quisesse implementar algo muito mais fácil não precisaria de tanta bravata. Muito melhor que dar calote é desvalorizar a dívida. Bastaria convidar Paul Krugman para ser assessor econômico, e iniciar o 'afrouxamento monetário' aqui no Brasil. Nome de moeda para colocar no que sobrar depois não ia faltar.
Amadurecimento da democracia
Fiquei certamente contente ao ver que nestas eleições não foi passada uma procuração em branco para a candidata oficial. Vimos muita baixaria, mas, a cada eleição que passa em um país desses, há razões para comemorar que ainda não estejamos vivendo completamente sob um governo autoritário, fundamentalista cristão, ou mesmo uma nova dinastia imperial, o que dado nosso histórico e a mentalidade do nosso povo seria absolutamente natural. Se você chamar a todos eles de 'presidente', é claro.
Alguns jornalistas entretanto se empolgam, e comemoram a 'festa da democracia'. Comemoram a 'maioridade do eleitor. Então vejamos o estado atual das coisas:
Temos voto imposto e acabrestado. Com o extenso uso da máquina pública, independente de quem está no poder, boa parte da população vota na sistematicamente na situação, independente de qualquer consideração. A compra de votos é proibida no varejo mas é liberada no atacado, com candidatos prometendo quantias caso sejam eleitos. Para interessar o eleitor, só mesmo a promessa imediata de mais dinheiro no bolso. Que vai sair do bolso de outro eleitor, evidentemente.
Assim como em outros países, fatores culturais como religião, posição em relação ao aborto e quiçá até time de preferência contam muito mais do que corrupção, idéias sobre o rumo do país, economia e administração pública. A população adora a monarquia. Vota em dinastias, famílias e sobrenomes. Um candidato ao governo do Distrito Federal - entidade política cuja própria existência é um mistério para mim - teve sua candidatura impugnada, mas sua esposa ainda levou 30% dos votos.
Vemos um total desconhecimento da população sobre pacto federativo, sobre as funções de senador, deputado. Ninguém sabe nada. Os candidatos não se candidatam a uma posição política: isso aconteça talvez na Suíça. Por aqui, se candidatam a Messias.
Temos hoje talvez uns 10% de brasileiros realmente capazes de exercer a cidadania. Pessoas que acompanham o debate cívico, que se informam e tem alguma noção de como funciona. Os demais, votam porque são convocados cartorialmente, e não querem pagar uma multa eleitoral. Fazem fila e mais fila para imprimir papeizinhos e depois fazem fila para votar, com um percentual gigante de erros de digitação, mesmo com campanhas eleitorais que mostram aos incapazes de digitar um número as teclas que eles precisam apertar.
Foi uma vergonha ver o supremo decidindo sobre quais documentos levar a poucos dias da eleição. Mais uma prova de que, decididamente, este não é um país sério. Temos aí uma 'justiça eleitoral', invenção tipicamente brasileira, que emprega vasta burocracia e não são capazes nem mesmo de evitar que candidatos palhaços concorram, como o 'abestalhado', que foi o deputado mais votado pelo estado mais rico do país, beneficiando outros candidatos graças a este espetacular furo nas leis de quociente eleitoral.
Finalmente, assistimos à implementação de uma lei de Ficha-Limpa, que como tipicamente acontece no Brasil, vai parar em flexíveis e nada transparentes decisões judiciais.
Admiro o otimismo de quem celebra o amadurecimento da nossa democracia. Mas falar em maioridade eleitoral em um quadro desses é bastante precipitado. Quem sabe em uns 50 anos nós chegamos lá!
Na pesquisa da escola do meu filho perguntaram: qual é a maior vantagem da democracia. Tive que pensar.
No nosso contexto, sinceramente, a maior vantagem é que ela possibilita uma transição menos violenta entre os grupos interessados na tomada do poder. Assim como nas batalhas entre as cidades gregas ou italianas, os príncipes entravam em campo com seus cavalos e seus lanceiros, desfilavam suas estratégias, movimentavam as tropas, flanqueavam com a cavalaria, até o lado menos ágil admitir derrota. Não era bem uma batalha. Geralmente tudo não passava de um ritual.
Da mesma forma, a campanha aqui é um ritual, e a democracia apenas nominal. Porque ela não é exercida plenamente, e nem seria possível com esta escala e o alto nível de centralização da política federal. O que é necessário é manter a todo custo a estrita observância das leis, a independência da imprensa, e a possibilidade de escrutínio público, exercido sobre quem quer que ganhe nas urnas - e todos os candidatos à príncipe precisam se submeter a isso.
A coisa precisa tocar a si mesma. Até para nos preparamos no futuro para um eventual presidente Tiririca...
Alguns jornalistas entretanto se empolgam, e comemoram a 'festa da democracia'. Comemoram a 'maioridade do eleitor. Então vejamos o estado atual das coisas:
Temos voto imposto e acabrestado. Com o extenso uso da máquina pública, independente de quem está no poder, boa parte da população vota na sistematicamente na situação, independente de qualquer consideração. A compra de votos é proibida no varejo mas é liberada no atacado, com candidatos prometendo quantias caso sejam eleitos. Para interessar o eleitor, só mesmo a promessa imediata de mais dinheiro no bolso. Que vai sair do bolso de outro eleitor, evidentemente.
Assim como em outros países, fatores culturais como religião, posição em relação ao aborto e quiçá até time de preferência contam muito mais do que corrupção, idéias sobre o rumo do país, economia e administração pública. A população adora a monarquia. Vota em dinastias, famílias e sobrenomes. Um candidato ao governo do Distrito Federal - entidade política cuja própria existência é um mistério para mim - teve sua candidatura impugnada, mas sua esposa ainda levou 30% dos votos.
Vemos um total desconhecimento da população sobre pacto federativo, sobre as funções de senador, deputado. Ninguém sabe nada. Os candidatos não se candidatam a uma posição política: isso aconteça talvez na Suíça. Por aqui, se candidatam a Messias.
Temos hoje talvez uns 10% de brasileiros realmente capazes de exercer a cidadania. Pessoas que acompanham o debate cívico, que se informam e tem alguma noção de como funciona. Os demais, votam porque são convocados cartorialmente, e não querem pagar uma multa eleitoral. Fazem fila e mais fila para imprimir papeizinhos e depois fazem fila para votar, com um percentual gigante de erros de digitação, mesmo com campanhas eleitorais que mostram aos incapazes de digitar um número as teclas que eles precisam apertar.
Foi uma vergonha ver o supremo decidindo sobre quais documentos levar a poucos dias da eleição. Mais uma prova de que, decididamente, este não é um país sério. Temos aí uma 'justiça eleitoral', invenção tipicamente brasileira, que emprega vasta burocracia e não são capazes nem mesmo de evitar que candidatos palhaços concorram, como o 'abestalhado', que foi o deputado mais votado pelo estado mais rico do país, beneficiando outros candidatos graças a este espetacular furo nas leis de quociente eleitoral.
Finalmente, assistimos à implementação de uma lei de Ficha-Limpa, que como tipicamente acontece no Brasil, vai parar em flexíveis e nada transparentes decisões judiciais.
Admiro o otimismo de quem celebra o amadurecimento da nossa democracia. Mas falar em maioridade eleitoral em um quadro desses é bastante precipitado. Quem sabe em uns 50 anos nós chegamos lá!
Na pesquisa da escola do meu filho perguntaram: qual é a maior vantagem da democracia. Tive que pensar.
No nosso contexto, sinceramente, a maior vantagem é que ela possibilita uma transição menos violenta entre os grupos interessados na tomada do poder. Assim como nas batalhas entre as cidades gregas ou italianas, os príncipes entravam em campo com seus cavalos e seus lanceiros, desfilavam suas estratégias, movimentavam as tropas, flanqueavam com a cavalaria, até o lado menos ágil admitir derrota. Não era bem uma batalha. Geralmente tudo não passava de um ritual.
Da mesma forma, a campanha aqui é um ritual, e a democracia apenas nominal. Porque ela não é exercida plenamente, e nem seria possível com esta escala e o alto nível de centralização da política federal. O que é necessário é manter a todo custo a estrita observância das leis, a independência da imprensa, e a possibilidade de escrutínio público, exercido sobre quem quer que ganhe nas urnas - e todos os candidatos à príncipe precisam se submeter a isso.
A coisa precisa tocar a si mesma. Até para nos preparamos no futuro para um eventual presidente Tiririca...
2 de outubro de 2010
A grande ausência no debate presidencial
Em mais um de seus ótimos artigos, Celso Ming comenta a total ausência do debate econômico na campanha presidencial.
http://blogs.estadao.com.br/celso-ming/2010/10/01/a-grande-ausencia/comment-page-1/#comment-2128
Comento:
Não sei se isto é de todo mal, porque indica que a 'herança maldita' na verdade não era tão maldita assim, e hoje virou 'consenso maldito'. Todos concordam sobre o consenso. Claro que é difícil governar com responsabilidade fiscal, mas no final compensa. Mesmo os populistas sabem disso. O seu eleitor pode não entender nada do assunto, mas se a moeda ou a economia entra em parafuso ele vai jogar a culpa no atual governante.
Especificamente sobre a questão dos juros, hoje o país poderia até escolher, pois temos alguns caminhos para reduzir juros de maneira sustentável. Porém, todos eles implicam em altos custos de ajuste. Assim como o plano Real resultou em um custo enorme de ajuste que até hoje não foi bem entendido pelas pessoas.
O futuro governo poderá aceitar a valorização natural do Real, o que causaria uma pressão de baixa nos índices de inflação - e os juros tomariam um rumo de baixa. Porém, este cenário é temido pela indústria nacional.
O futuro governo pode retomar o único caminho sutentável para reduzir a enorme parcela de juros que o país paga: parar de gastar tanto, conseguir superavits nominais, o que neste contexto internacional de quebra geral permitiria rolar a dívida com taxas bem menores, se apresentando ao mercado como um dos poucos países a apresentar as contas em ordem.
Finalmente, outro tema importante já abordado pelo Celso Ming, o futuro governo poderia inicializar o regime de capitalização na previdência, o que passaria, pela primeira vez, para surpresa dos leigos, a realmente acumular poupança ao invés de gastar agora e acumular promessas. Para minha surpresa o PV adotou esta proposta, e no debate presidencial o candidato José Serra também se comprometeu com ela.
O PT por sua vez tem duas escolhas. Ou os petistas começam a arrumar a casa, visando permanecer lá por um bom tempo, ou terminam de roer as paredes e deixam a bomba explodir na mão de sua candidata.
Administrar é isso, fazer escolhas difíceis. Conciliar a vontade de comer a vaca agora com o desejo de deixar a vaca viva e tirar o leite ao longo do tempo.
Infelizmente em campanha eleitoral eles se candidatam ao posto de salvador da pátria e mercadores de milagres. Tudo é fácil. Um vai aumentar isso, o outro vai criar aquilo. A nossa população é simples, infantilizada para a democracia. O eleitor ainda não é maduro o suficiente para entender que no final ele é que paga por estas promessas de almoço grátis.
http://blogs.estadao.com.br/celso-ming/2010/10/01/a-grande-ausencia/comment-page-1/#comment-2128
Comento:
Não sei se isto é de todo mal, porque indica que a 'herança maldita' na verdade não era tão maldita assim, e hoje virou 'consenso maldito'. Todos concordam sobre o consenso. Claro que é difícil governar com responsabilidade fiscal, mas no final compensa. Mesmo os populistas sabem disso. O seu eleitor pode não entender nada do assunto, mas se a moeda ou a economia entra em parafuso ele vai jogar a culpa no atual governante.
Especificamente sobre a questão dos juros, hoje o país poderia até escolher, pois temos alguns caminhos para reduzir juros de maneira sustentável. Porém, todos eles implicam em altos custos de ajuste. Assim como o plano Real resultou em um custo enorme de ajuste que até hoje não foi bem entendido pelas pessoas.
O futuro governo poderá aceitar a valorização natural do Real, o que causaria uma pressão de baixa nos índices de inflação - e os juros tomariam um rumo de baixa. Porém, este cenário é temido pela indústria nacional.
O futuro governo pode retomar o único caminho sutentável para reduzir a enorme parcela de juros que o país paga: parar de gastar tanto, conseguir superavits nominais, o que neste contexto internacional de quebra geral permitiria rolar a dívida com taxas bem menores, se apresentando ao mercado como um dos poucos países a apresentar as contas em ordem.
Finalmente, outro tema importante já abordado pelo Celso Ming, o futuro governo poderia inicializar o regime de capitalização na previdência, o que passaria, pela primeira vez, para surpresa dos leigos, a realmente acumular poupança ao invés de gastar agora e acumular promessas. Para minha surpresa o PV adotou esta proposta, e no debate presidencial o candidato José Serra também se comprometeu com ela.
O PT por sua vez tem duas escolhas. Ou os petistas começam a arrumar a casa, visando permanecer lá por um bom tempo, ou terminam de roer as paredes e deixam a bomba explodir na mão de sua candidata.
Administrar é isso, fazer escolhas difíceis. Conciliar a vontade de comer a vaca agora com o desejo de deixar a vaca viva e tirar o leite ao longo do tempo.
Infelizmente em campanha eleitoral eles se candidatam ao posto de salvador da pátria e mercadores de milagres. Tudo é fácil. Um vai aumentar isso, o outro vai criar aquilo. A nossa população é simples, infantilizada para a democracia. O eleitor ainda não é maduro o suficiente para entender que no final ele é que paga por estas promessas de almoço grátis.
1 de outubro de 2010
Eleger a Fiona está custando muito caro
O Brasil está vivendo um momento inédito no mundo. Uma pessoa que ninguém conhecia, sem passado (o verdadeiro precisa ser escondido), que mal sabe falar ou conectar as idéias, inexperiente, está para ser eleita presidente da República.
Muito acham que isso é reflexo da popularidade do Bravateiro mor da nação. Ledo engano, a Fiona do Bravateiro é resultado do uso indevido e vergonhoso do dinheiro público.
Tudo começou com o bolsa-família, a compra institucionalizada de votos. Mas esse programa sai barato. É esmola.
Caro foram os aumentos e privilégios da nova burguesia brasileira, o funcionalismo público federal, em especial o judiciário, que a cada eleição são premiados com pacotes de bondades escorchantes.
Mas a maior conta, quem diria, veio através do uso absurdo do dinheiro público para o bolsa-BNDES.
A grande força dessa coligação que está empurrando a Fiona para a presidência é fruto de cooptação do empresariado brasileiro.
E sabe quem está pagando os generosos subsídios do crédito para as empresas? A população brasileira, em especial os mais pobres. Esse bolsa-BNDES está sendo financiado com mais dívida pública. Mesmo procedimento usado pela ditadura militar que trouxe séries conseqüências durante a década de 1980.
É por isso que sempre afirmo que o PT e os ditos movimentos sociais não passam de Chantagistas Sociais. Ficam arrotando esse discurso social, mas no governo apenas defendem os interesses de suas categorias. Não é a toa que o Bravateiro está unido ao que há de mais atrasado na política nacional.
O PT e o Bravateiro estão brincando com as finanças públicas para instalar uma República Sindical-Bolivariana-Fisiologista que vai custar muito caro à nação. E quando a bomba estourar (o relógio já começou a contar) a maioria da população não vai entender o motivo. Da mesma forma, que não entende em quem está votando hoje.
Muito acham que isso é reflexo da popularidade do Bravateiro mor da nação. Ledo engano, a Fiona do Bravateiro é resultado do uso indevido e vergonhoso do dinheiro público.
Tudo começou com o bolsa-família, a compra institucionalizada de votos. Mas esse programa sai barato. É esmola.
Caro foram os aumentos e privilégios da nova burguesia brasileira, o funcionalismo público federal, em especial o judiciário, que a cada eleição são premiados com pacotes de bondades escorchantes.
Mas a maior conta, quem diria, veio através do uso absurdo do dinheiro público para o bolsa-BNDES.
A grande força dessa coligação que está empurrando a Fiona para a presidência é fruto de cooptação do empresariado brasileiro.
E sabe quem está pagando os generosos subsídios do crédito para as empresas? A população brasileira, em especial os mais pobres. Esse bolsa-BNDES está sendo financiado com mais dívida pública. Mesmo procedimento usado pela ditadura militar que trouxe séries conseqüências durante a década de 1980.
É por isso que sempre afirmo que o PT e os ditos movimentos sociais não passam de Chantagistas Sociais. Ficam arrotando esse discurso social, mas no governo apenas defendem os interesses de suas categorias. Não é a toa que o Bravateiro está unido ao que há de mais atrasado na política nacional.
O PT e o Bravateiro estão brincando com as finanças públicas para instalar uma República Sindical-Bolivariana-Fisiologista que vai custar muito caro à nação. E quando a bomba estourar (o relógio já começou a contar) a maioria da população não vai entender o motivo. Da mesma forma, que não entende em quem está votando hoje.
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