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16 de março de 2011

Dollar loses its safe-haven status

The events on the last weeks proved for the first time since at least WWII that the dollar lost its safe-haven status. Not only to the yen but also to the swiss franc, on record heights against the dollar. Well done, Mr Bernanke!

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Os eventos das últimas semanas revelaram pela primeira vez desde pelo menos o pós-guerra que o dólar perdeu o status de 'safe haven', aquela moeda para a qual todos correm no meio da volatilidade e da incerteza de uma crise. Não apenas o iene, mas também o franco suíço estão fortes em relação ao dólar em níveis jamais vistos. Parabéns, Mr Bernanke!

3 de dezembro de 2010

Brasil acorda para a real situação da expansão do crédito ao consumidor

Financial Times, hoje : "Brazil raises reserve requirements to avert bubble"

A evolução da notícia aqui dentro:

"Dilma deve tirar Meirelles do BC
para reduzir juros, diz jornal"

"Setúbal descarta bolha e vê crédito no Brasil crescer por alguns anos"

"Não existe bolha de crédito no Brasil" José Olympio Pereira, presidente do Credit Suisse

Aí depois de uma semana:

"O Brasil corre o risco de passar por uma bolha de crédito?"

Aí um dia depois

"Aperto monetário visa evitar bolha no crédito, diz Meirelles"

Senhores passageiros, apertem os cintos! A conta vai chegar

8 de novembro de 2010

Presidente do Banco Mundial sugere o retorno ao padrão ouro

O cenário monetário e financeiro muda rapidamente com a crise. Não espere que ninguém venha explicar na grande mídia ou na televisão, mas líderes de Rússia, Arábia Saudita e China, países que controlam grandes reservas de investimentos e são credores líquidos, são recebidos com tapete vermelho na Europa, enquanto Obama concretizou sua liderança histórica barranco-abaixo, e os emissários americanos são atacados no G20 por suas tentativas de inflacionar o dólar de maneiras pouco convencionais. Temos uma rápida mudança na estrutura de poder.

Governos da periferia da Europa como o irlandês estão tendo grandes problemas para vender títulos sem pagar altas taxas de juros. 8% em um título Irlandês é, para eles, algo inimaginável. Isto nos dá um bom exemplo da resistência do Brasil à crise. A Europa se viciou no crédito fácil tanto quanto os EUA, mas agora tentam reorganizar as finanças públicas do jeito difícil, passando por uma fase de aperto e de reajuste econômico.

Já nos EUA a situação é desoladora. O que toma conta do pensamento econômico americano são os velhos conselhos Keynesianos. Os velhos erros fundamentais que partem de uma concepção errada dos processos econômicos e dão origem ao que se entende por macroeconomia. A macroeconomia é uma teoria em frangalhos, após todos os golpes que a realidade econômica lhe desferiu nas últimas décadas, e especialmente nesta crise.

Articulistas como Paul Krugman e DeLong, e em geral qualquer um de Princeton, Yale e demais departamentos econômicos fortemente keynesianos, recomendam do alto de suas torres-de-marfim uma estratégia que no longo prazo vai levar ao colapso do dólar e da américa. Já lavam as mãos desde já: se não funcionar, é porque os americanos não se jogaram de um penhasco alto o suficiente.

É uma grande pena que uma economia tão rica como a americana pereça como cobaia da pseudo-ciência Keynesiana. Estão estimulando a inflação porque acreditam no consumo como a mola propulsora da economia. Subcrevem àquela opinião imbecil de que na divisão global do trabalho cabe aos EUA o papel de se especializar em consumo, enquanto cabe ao resto do mundo, especialmente a China, competir para supri-los com capital, crédito e, principalmente, com os produtos que eles importam.

Agora eles querem tentar através de uma inflação de preços mais alta sabotar o reestabelecimento da poupança nos EUA, que rapidamente se recuperou por causa da crise. Os americanos tem cortado as dívidas, economizado, e isso vai contra os planos do Fed.

Só que desta maneira o capital do país continuará sendo dilapidado pelo consumo, como tem acontecido nas últimas décadas, e como naquela estória em que os trabalhadores da fazenda resolvem comer as vacas leiteiras para ver se a produção da fazenda aumenta. Só o que os Keynesianos enxergam são efeitos de curto-prazo. E no curto prazo, os QE's do Fed vão causar um retorno momentâneo à euforia pré-crise. Por quantos meses isto pode ser sustentado, não cabe perguntar.

Mas como a carruagem da economia mundial deve prosseguir, algumas vozes dissidentes tem se levantado contra aqueles cegos que dizem que 'não há nada de errado' com a macroeconomia ou com o sistema monetário. Uma nova declaração que me causou muita surpresa foi a do presidente do banco mundial, sugerindo que o ouro deveria ter um papel maior na estabilização do sistema monetário internacional.

http://www.ft.com/cms/s/0/e669c7dc-eb43-11df-811d-00144feab49a.html#axzz14ivBoA7r

Isto mesmo. Isto não é opinião de Peter Schiff, nem de Jim Rogers, Marc Faber ou outros analistas de sucesso, com grande experiência prática ou forte base austríaca. Vem de um presidente do banco mundial.

O maior medo dos Keynesianos é a deflação de preços. Eles vivem em um mundo econômico onde salários sempre sobem e nunca podem ser negociados. Isso na época de Keynes tinha uma certa razão de ser, com forte atuação de sindicatos. A desvalorização da moeda através da inflação é, neste esquema, uma trapaça que ajuda os preços a atingirem o valor correto.

Como escrevi em um post anterior, não consigo ver problema nenhum com o padrão ouro. Uma moeda com 6000 anos de uso certamente é mais estável do que a nossa moeda fiat com no máximo 200 anos de uso. Bancos e estados precisam de um laço forte com as possibilidades do mundo real, e a moeda fiat nos traz rápido crescimento de baixa qualidade, com sucessivas crises, maiores e piores.

Sob um padrão ouro a importação americana da China seria paga com ouro. Não há deficit, porque o ouro é a exportação americana para a China. Logo diriam que há uma 'fuga de ouro', e justamente por bater nestas amarras é que o padrão-ouro foi abandonado. A moral da estória é: estados precisam destas amarras. Você remover as amarras só torna o problema pior.

Com mais ouro a China naturalmente construiria um estoque de capital ao invés de um estoque de dívida pública americana. Emprestariam ao mundo com os juros mais baixos. Ou, se preferirem, guardariam estas pilhas de ouro sem ter retorno nenhum. Os preços nos EUA cairiam bastante, e a taxa de juros aumentaria, como deve ser. O contrário do que acontece no sistema monetário atual, onde quanto mais os EUA importa, mais abaixam as taxas de juros em dólar.

Os Keynesianos entendem o fluxo econômico como um ciclo. Mas é evidente a qualquer matemático ou engenheiro que este ciclo dos EUA com a China e os incentivos trocados nas taxas de juros constroem o que se chama de sistema de feedback positivo. O que isto causa em qualquer sistema, seja econômico, seja em um circuito eletrônico ou em uma manada de animais? Crise, imprevisibilidade, caos, colapso total.

28 de outubro de 2010

Qual era mesmo o problema com commodity-money?

Quanto mais eu leio sobre a confusão em que o mundo se meteu graças ao distorcido sistema monetário, com centenas de moedas fiat cada uma controlada por seu banco central, mais me pergunto qual era, afinal, o problema com o uso de uma commodity como o ouro como moeda global.

Pegando o caso americano e chinês, por exemplo.

A expansão industrial na China resulta em produtos baratos nos EUA. Os americanos compram estes produtos e caso estivéssemos no padrão ouro não haveria acúmulo nenhum de déficits de um lado e reservas do outro. Não. Eles pagariam em metal, que pode ser usado do mesmo modo como moeda na China, nos EUA, ou aonde os chineses quiserem. A transação é saldada na hora.

Aí por ter menos produtos e mais ouro no mercado, os preços naturalmente sobem na China, e por ter mais produtos e menos ouro, os preços caem nos EUA.

Como há mais ouro na China, as taxas de juros caem por lá, considerando outros fatores os mesmos.

Como há menos ouro nos EUA, as taxas de juros sobem por lá.

Esta situação gera um equilíbrio natural. Com preços mais baratos e maiores taxas de juros, os EUA vão atrair investimentos chineses, caso não seja mais interessante investir estes recursos na China, e também vão exportar mais. Aí naturalmente tudo se equilibra.

11 de outubro de 2010

A jaguatirica também quer encarar o tigre

Alguns comentaristas na imprensa vem pedindo apoio às sanções contra a China. É bastante evidente o interesse do exportador industrial ao se unir nesta campanha contra as intervenções chinesas. Mas é um erro brigar com cachorro-ou felino- grande sem ter porque.

Senão vejamos. Qual é o jogo que a China vem jogando nas últimas décadas?

Subsidiar o consumo dos consumidores americanos e europeus, exportando para estas zonas mais do que importa, turbinando seu processo de industrialização voltada à exportação e acumulando um balanço positivo ano após ano. Nada diferente do 'modelo asiático' que por anos foi a base do crescimento do Japão e da Coréia, com forte intervencionismo estatal, mas com empresas e conglomerados privados, e consumidores estrangeiros fazendo a seleção de mercado, para não cair naquele protecionismo de mercado interno sem competitividade que conhecemos tão bem.

Como sob este modelo há balanço comercial positivo, o Yuan se valorizaria naturalmente. Aí entra a manipulação do governo Chinês, que enxuga os dólares que entram na China, evitando esta desvalorização, dificultando a vida do chinês e ao mesmo tempo formando uma imensa reserva de títulos do governo americano. Exatamente como foi feito por muito tempo aqui no Brasil. Só que os fluxos positivos deles são enormes, e a reserva, a primeira ou segunda maior do mundo.

Isto cria enorme demanda por títulos americanos, o que abaixa as taxas de juros nos EUA, já com viés de baixa pela simples entrada de produtos baratos.

Resultado: A China manda produtos para eles e recebe títulos da dívida dos governos de volta. Um modelo paradoxal onde o governo do país pobre em desenvolvimento privilegia a indústria exportadora às custas de encarecer o nível de vida de sua própria população, que trabalha extra e acumula poupanças forçadas que financiam os projetos e o estilo de vida mais avançados dos países mais ricos.

Tudo estava bom e ninguém reclamava tanto antes da crise. Porque todos gostam de produtos baratos e juros baixos, certo? Todos estes containeres de produtos vão parar em 'Walmarts' e subsidiam a vida dos americanos, especialmente os mais pobres. O Fed cumpre cegamente seu papel no sistema monetário, que é evitar que haja queda de preços, e com isso dá-lhe botar os juros perto de zero e criar crédito no sistema bancário.

Só que no atual nível de desenvolvimento dos EUA e Europa, estes juros baixos distorceram fortemente a economia. Isto sempre acontece, mas no caso deles a distorção foi gigante. E causou mudanças de comportamento econômico bastante grandes, e em geral negativas. Sem investimentos viáveis que possam trazer um retorno, os bancos usaram estes juros baixos para financiar bolha atrás de bolha, e comportamentos irresponsáveis e de alto-risco.

Não é de se admirar que algumas gerações deixaram de lado profissões mais técnicas para fazer carreira em algum setor bolha. Ou que muitos passassem a viver como proprietário de imóveis, na ciranda de compra-vende e embolsando sempre uma diferença positiva.

O sistema monetário moderno funciona assim, e, sem querer me aprofundar neste tema, a razão da crise está em problemas técnicos deste sistema, que é um sistema inventado. É um sistema que funciona no médio prazo, por uns 30-50 anos. Mas não é um sistema robusto para durar 100 anos. O sistema monetário natural do mundo sempre foi o uso de commodities metálicas como ouro e prata.

Para finalizar, há um país na América do Sul que não possui poupanças, que possui taxas de juros altas como consequência disso, e que tem grandes oportunidades de investimento que não podem ser todas atendidas graças à escassez de poupança. Este país é uma potência no setor de commodities minerais e agrícolas, e tem alguns dos produtos mais desejados pela China, como alimentos, minério e energia.

O papel dos EUA como parceiro comercial brasileiro ainda é importante, mas deve continuar em declínio graças à crise. Enquanto o papel da China só tende a crescer.

Em uma situação dessas falar em 'usar arsenal monetário do Brasil contra China' é, fazendo trocadilho, dar um verdadeiro tiro no pé.

O grande medo é do Brasil se aproximar da China e ficar preso no papel de fornecedor de matéria-prima. Não acredito que seja o caso, principalmente se resolvermos nossos próprios problemas.

E tem um motivo importante pelo qual o Brasil fica na exportação básica. Porque é difícil de importar componentes, agregar valor e reexportar. É um modelo alienígena para o industrial brasileiro, conclamado a nacionalizar toda a cadeira, e acostumado a reinventar a roda, localizar componentes já aqui no Brasil, e vender produtos mais-ou-menos para o mercado local. Isso quando já não aderiram ao novo modelo de 'nacionalizar' os produtos chineses mais defasados colocando um selinho em cima.

Este modelo de importar o melhor e mais barato e agregar valor é exatamente no que os chineses se especializaram, e podíamos fazer o mesmo por aqui. Se observarmos dados industriais, veremos que a China importa muitos componentes do Japão, Malásia, Coréia. Porque este modelo é o que funciona para a indústria moderna.

Portanto acredito que devíamos nos aproximar da China, e não entrar nessa briga desnecessariamente.

Um primeiro passo seria apoiar o comércio com a China em Yuan e Reais, compra de títulos brasileiros pelo governo da China, pacto de livre-comércio, com a entrada de componentes baratos para que a nossa indústria, cujo desmoronamento parece inevitável, possa se reconstruir sob um novo sistema de produção mais moderno, voltado ao mercado externo e com foco em adicionar valor sobre componentes comoditizados.

3 de setembro de 2010

Keynesianos clamam por inflação nos EUA

Como esperado, não há saída fácil para esta crise, especialmente nos EUA. Krugman e outros economistas da velha-guarda assistem chocados à Europa implemntando reformas emergenciais de cortes de gastos públicos, e jogando o Keynesianismo pela janela.

O último bastião é os EUA, com o dólar pronto para ser imolado pelo grande plano de escape. Pode até funcionar, enquanto os investidores aceitarem financiar imensa dívida americana em taxas baixas.

http://blogs.estadao.com.br/paul-krugman/2010/09/02/cura-pela-inflacao/

A Economist dá uma indicação de que os EUA podem também em breve se unir à onda de cortes de gastos européia. Não me surpreenderia. Uma ilusão só dura enquanto há aqueles dispostos a acreditar nela. Como disse o analista Jim Rogers, não há 'double-dip', há apenas a continuação da mesma recessão. O remédio Keynesiano nunca deixou de ser um paliativo. A recessão 'double-dip' assusta os Keynesianos, que acusam Obama de não fazer o bastante ou de não implementar o grande plano exatamente de acordo com a cartilha do economista morto.

http://www.economist.com/node/16943653?story_id=16943653

Mas já podemos antever que se não for Obama, será outro presidente a fazer os duros ajustes necessários. Caso contrário, sabemos exatamente o que eles passarão nos EUA. Seguirão um programa de 'quantitative easing' saudado pelos Keynesianos - imprimir dinheiro. Afinal é a única maneira de injetar ainda mais crédito no sistema quando os juros já estão em 0%. E de uma inflação 'Rogoff' de 10% ao ano podemos passar para uma de 30% ou 50%, sempre com retornos decrescentes, como enfatiza a Economist e como vimos no Brasil.

Pois se as pessoas se acostumam com a inflação, a mágica inflacionária deixa de funcionar como desejado. São necessárias doses maiores e maiores da mesma droga. Ainda hoje no Brasil 30% dos preços possuem indexação, resquício de uma época onde praticamente 100% dos preços eram indexados. Ou seja, até hoje pagamos um preço pela inflação das eras passadas. Juros zero por muito tempo, inflação muito alta, estas coisas induzem mudanças de comportamento econômico que nem sempre são mensuráveis pelos economistas, e que persistem por décadas.

Assim como persistiria a perda de credibilidade do banco central americano, coisa que apenas recentemente é reconquistada no Brasil, não sem muitos adversários. Será que poderemos ver o aparecimento do 'Novo Dólar'? A moeda no Brasil trocou de nome diversas vezes, como se quisesse sumir de vergonha ou induzir amnésia coletiva nos que a usam. Mas aí ao invés do 'tem que dar certo' o Fed pode usar como lema o nome do livro do Rogoff, 'desta vez é diferente'! Aliás, este poderia ser um bom lema para todos os Keynesianos.

Se os EUA seguirem o outro caminho, que é vender dívida para continuar estimulando a economia com déficits, poderemos ver outro retrato familiar. Poderemos ver um mercado saturado de dívida americana, com investidores estrangeiros se recusando a cooperar. Ver juros aumentando. Ver o custo de pagamento de juros da dívida americana pular dos 5% atuais para o patamar brasileiro de 30%. Dá para imaginar isto em um país onde o presidente quer espaço fiscal para montar um sistema de saúde público? Juros, previdência e saúde são os três maiores focos de recursos públicos no Brasil, e assim será nos EUA. Só que lá eles tem um gigante orçamento de defesa, que assegura ao país o posto de potência militar. Alguma coisa vai ter que ceder.

http://en.wikipedia.org/wiki/United_States_federal_budget

17 de maio de 2010

Gary North explica como funciona o sistema

O establishment econômico usou a ganância dos eleitores para criar uma árvore de dinheiro para os bancos. E tem funcionado da seguinte maneira, desde um pouco antes da primeira guerra.

Os políticos prometem distribuir aos seus eleitores a renda retirada dos mais ricos. Os eleitores recebem promessas de emprego público, subsídios governamentais para sindicatos e para um generoso sistema de pensões. O estado do bem-estar cresce.

Os políticos sabem que não é possível aumentar os impostos o bastante para honrar estes compromissos. Eles passam a usar um sistema contábil "pay-as-you-go": A conta nunca fecha, mas é passada automaticamente às gerações futuras, através da rolagem da dívida pública e do sistema previdenciário.

Os governos se endividam. Os investidores compram a dívida pública, porque é garantida pelo governo. Estes investimentos são considerados livres de risco.

Estouram guerras. Os governos se endividam ainda mais. Esta dívida jamais será paga. Ela sempre aumenta. A dívida velha é rolada indefinidamente.

Os governos continuam vendendo promessas ainda maiores aos seus eleitores, que acreditam que estas promessas irão render frutos algum dia.

Quando começam tempos mais difíceis, os bancos centrais compram dívida pública com moeda fiat. Eles mantém a dívida rolando, e aumentando.

Qualquer ameaça de moratória derruba o sistema financeiro. Quando chega a crise, governos e o banco central assumem as perdas dos maiores bancos comerciais.

Os eleitores não fazem nada, pois eles mesmos estão completamente afundados em dívidas. Não possuem mais economias. Eles vivem de promessas governamentais. Não desejam uma quebra geral.

(...)

Este arranjo está agora caindo aos pedaços. O alto nível de endividamento está criando oportunidades, onde os especuladores expõem as mentiras dos governos e dos bancos centrais. Há lucros enormes a serem realizados no final deste espetáculo.

Artigo original no contexto dos PIIGS pode ser encontrado aqui:

Comento: O artigo original trata da exaustão do estado de bem-estar social. Alguns liberais mais exaltados, ligados aos Austríacos e às correntes anarquistas, se precipitam ao enterrar vivo o estado de bem-estar social. Esquecem que o norte da Europa vive sob este sistema, já passou por crises, e já o reformou, removendo entraves burocráticos e criando portas de saída dos programas estatais.

O norte da Europa hoje paga pela conta do sul, e está longe de um colapso financeiro, embora as mudanças de comportamento econômico resultantes de um sistema de bem-estar social sejam em geral negativas no longo prazo.

Concordo que estamos vendo uma espécie de colapso deste sistema. Mas a conta chega bem antes nos países sem uma cultura de seriedade no trato das contas públicas.

North também fala de uma 'moratória' da dívida. Tal moratória é impossível nos EUA. O estado simplesmente controla a moeda fiat, coisa que não acontece na Grécia, e que não aconteceu nas crises de dívida externa na América Latina e na Ásia. Só quem pode imprimir dólar é, justamente, o Fed americano.

Portanto, o que acontece na sequência de uma dívida impagável não é moratória, e sim a monetização da dívida, que resulta em uma inflação ou hiper-inflação. As perdas bancárias americanas não foram em títulos da dívida. Não é um comportamento irracional de mercado considerar a dívida pública como baixo risco. É realmente baixo risco, pois bancos, banco central e estado realmente tem a maquininha na mão.

Mas é extremamente verdadeira e sinistra a observação sobre o endividamento privado. Uma situação nos países ricos onde a maioria da população possui dívidas pode se tornar ainda pior do que a situação dos países em desenvolvimento, onde grande parte do eleitorado vota em demagogos pois não tem nada a perder. Porque escravos por dívidas não tem muita capacidade de resistir ao avanço dos que tem o poder de cancelar a dívida de alguns e levar outros à falência.

Princípios democráticos e republicanos são compatíveis apenas com uma sociedade livre. É necessário que a maioria da população possua liberdade, informação, propriedade privada. Caso contrário ninguém tem nada a perder e a demagogia reina solta. Nos aproximamos da tirania.

11 de maio de 2010

A Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos: Uma Breve Explanação

Por Dan Mahoney (Ph.D em matemática, trabalha para a Mirant-Americas)

A solução favorita - e completamente equivocada - da mídia para todos os declínios econômicos é que o Banco Central vá diminuindo a taxa básica de juros até que a economia comece a mostrar alguma revigorada. O que há de errado com essa abordagem? Imprimir dinheiro - que é o que significa reduzir as taxas de juros para níveis abaixo do mercado - é uma maneira artificial de se recuperar de uma recessão que foi causada por um crescimento econômico artificial; um boom de prosperidade que não teve qualquer fundamento real. Esse ponto, no entanto, é completamente desconhecido por quase todos os comentaristas, porque eles não têm a menor compreensão da Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos.

O presente artigo faz um breve resumo da teoria, que fornece uma explicação sobre os recorrentes períodos de prosperidade e recessão que parecem assolar como uma praga as sociedades capitalistas. Como Salerno (1996) argumentou, a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos é de muitas maneiras a quintessência da economia austríaca, pois ela integra várias idéias que são singulares àquela escola de pensamento, tais como a estrutura do capital, a teoria monetária, o cálculo econômico e o empreendedorismo. Assim sendo, seria impossível explicar adequadamente uma teoria tão rica em tão curto espaço. (Ver Rothbard, America's Great Depression, para maiores detalhes). Entretanto, será feita aqui uma tentativa de mostrar como essas idéias relevantes se combinam para formar uma estrutura unificada.

A Teoria

O homem está sempre lidando com um mundo em que há escassez física. Isto é, nem todos os nossos desejos e necessidades, que são praticamente ilimitados, podem ser satisfeitos. Fora do Jardim do Éden, temos de produzir para poder consumir, e isso significa que temos de combinar o nosso trabalho a quaisquer que sejam os recursos da natureza que nos sejam disponibilizados. Como um ser inerentemente racional, o homem descobriu várias maneiras de resolver esse problema, tais como a cooperação pacífica sob a divisão do trabalho - o que leva a um aumento da produtividade -, e os direitos sobre a propriedade privada, que permitem o cálculo econômico de modo que diferentes trajetórias de ação possam ser comparadas de maneira significante.

(Isso não significa que o homem tem uma presciência perfeita e está sempre antecipando corretamente os resultados, bons ou ruins, de suas ações; significa apenas que o homem age propositalmente - ele sempre julga ex ante qual a linha de ação que supostamente melhorará a sua situação - e é capaz de distinguir o sucesso do fracasso, e agir de acordo).

Entretanto, será de grande auxílio considerar a trajetória do desenvolvimento econômico através de um exemplo simplificado, aquele de um "Robinson Crusoé" isolado em uma ilha. A circunstância ilustrada aqui é que uma pessoa deve de alguma forma combinar o seu trabalho com os recursos disponíveis na natureza para que ela possa produzir bens para seu consumo (tipo comida, abrigo, etc.). Por exemplo, eu posso colher frutas com a minha mão, o que vai me permitir um certo nível de consumo. Entretanto, se eu quiser ter um nível maior de consumo, eu terei de criar algum meio de aumentar minha coleta de frutas - por exemplo, construindo uma vara com a qual arrancar as frutas dos arbustos, e uma rede para coletá-las enquanto elas caem.

A menos que esses meios já me sejam dados prontos, eu terei de construí-los por conta própria, e isso vai tomar tempo - tempo durante o qual eu não poderei coletar e consumir frutas utilizando o meu velho método. Assim, durante o tempo em que eu estiver criando o meu novo - e presumivelmente mais eficiente - método, eu tenho de continuar me sustentando de alguma forma. E isso só será possível se eu tiver poupado (isto é, me abstido de consumir) uma quantia suficiente de frutas no passado, de forma que eu possa me concentrar em outros afazeres agora e, ao mesmo tempo, poder continuar me alimentando. (Para mais sobre esse processo, ver Rothbard, Man, Economy, and State, capítulo 1).

Sejamos claros sobre o que está acontecendo: essa pessoa não está simplesmente mudando do consumo para a produção; ela está mudando de uma forma de produção para outra forma de produção. Ela não pode consumir uma coisa até que esta tenha sido produzida, o que significa que todos os processos de produção devem anteceder o consumo. A questão, no entanto, é o que deve ser feito para que se possa mudar para um meio de produção supostamente mais efetivo.

É óbvio que se o sistema de vara e rede, presumivelmente mais produtivo, tivesse requerido a mesma quantidade de tempo para ser construído do que o método manual de coleta, eu já teria utilizado-o desde o início. Mas é claro que esse não é o caso. E dado que adquirir um aumento de produtividade tem um custo - a saber, o tempo que era gasto utilizando o método antigo passa a ser gasto na criação de meios para se facilitar a produção e, consequentemente, o consumo -, deve haver algum meio de se pagar esse custo.

É claro, nem todos os processos de produção mais extensos são mais produtivos. Mas em qualquer tempo e lugar, o homem sempre vai escolher aqueles processos de produção que podem produzir uma determinada quantidade de produto para consumo no menor período de tempo. Um processo que tome mais tempo para chegar ao seu estágio final somente será adotado se for analogamente mais produtivo. Na concepção austríaca, uma maior poupança permite a criação de processos de produção mais "indiretos" - isto é, processos de produção cada vez mais distantes de seu produto acabado. Esse é o papel da poupança, e podemos perguntar o que determina um nível particular de poupança.

A preferência temporal é o grau em que as pessoas valoram o consumo presente em relação ao consumo futuro. Quanto maior a preferência temporal, maior o valor dado ao consumo presente. O ponto chave da Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos é que intervenções no sistema monetário - e há algum debate sobre qual forma essas intervenções devem ter para gerar o processo de expansão-recessão - criam um descompasso entre as preferências temporais do consumidor e os julgamentos dos empresários em relação a essas preferências temporais.

Retornemos ao exemplo do Crusoé acima, e consideremos algumas tentativas de se construir meios mais produtivos para a extração de frutas. O que me restringe nesse empreendimento é o meu nível de preferência temporal. Se eu aprecio o consumo presente de tal maneira que a idéia de um aumento no consumo futuro não é capaz de me fazer deixar de comer algumas frutas hoje, meu sistema de vara e rede não será construído. E mesmo se houvesse um sistema bancário de reservas fracionárias, a criação (impressão) de notas de papel (ticket-fruta) não poderia mudar esse fato.

Como exemplo numérico, considere o caso em que a coleta manual me garante doze frutas por dia e que eu simplesmente não esteja disposto a consumir menos de dez frutas por dia. Suponha também que minha preferência temporal diminua, de tal forma que esteja disposto a poupar duas frutas por dia durante sete dias (ignoremos questões como perecibilidade, que obviamente não se aplica a uma economia monetária). Assim, eu terei então uma reserva de catorze frutas. Feita essa poupança, assuma que eu passe a trabalhar durante um quarto do dia desenvolvendo meu novo método de produção e gaste os restantes três quartos do dia coletando frutas utilizando a minha técnica antiga. Esse velho método vai me garantir nove frutas por dia (em um dia inteiro eu colhia doze, em três quartos do dia um vou colher nove), e eu posso usar uma fruta da minha poupança para satisfazer minhas necessidades de consumo atuais (não aceito consumir menos do que dez frutas por dia).

Se eu puder finalizar o sistema de vara e rede em catorze dias (a durabilidade das minhas reservas), então tudo estará bem, e eu poderei curtir os frutos do meu trabalho (sem trocadilho). Entretanto, se eu calcular mal e o processo me tomar mais do que catorze dias, eu terei de suspender temporariamente a produção (ou ao menos atrasá-la) para poder financiar meu consumo atual (alimentação), já que, como assumido, eu valorizo mais um determinado nível de consumo atual do que um consumo futuro maior (sendo essa a essência da preferência temporal). O ponto é que deve existir propriedade (frutas) suficiente para alongar a estrutura de produção, e essa propriedade só pode advir da poupança. Se a minha preferência temporal não gerar propriedade em quantidade suficiente para criar esse processo de produção, meus esforços redundarão em fracasso.

Para que esse exemplo não seja tido como artificial, consideremos uma situação em que as minhas necessidades são de nove frutas por dia. Seria plausível imaginar que eu ainda poderia trabalhar durante um quarto do dia na minha nova técnica sem a necessidade de ter poupado uma provisão de alimentos, já que os remanescentes três quartos do dia, nos quais eu coleto frutas utilizando o método antigo, satisfarão minhas necessidades. No entanto, duas coisas devem ser observadas. Primeiro, minha preferência temporal deve diminuir de um consumo diário de doze frutas para um de nove. Segundo, e esse é o ponto principal, caso eu tivesse poupado previamente, eu poderia gastar ainda mais tempo na criação do novo método, o que me traria um aumento da coleta de frutas mais rapidamente. A poupança ainda permanece o aspecto chave desse processo de construção de capital, e a poupança é guiada pela preferência temporal. Na verdade, a preferência temporal se manifesta através da poupança.

Esse mesmo processo de se utilizar a poupança para financiar a produção atual de bens que serão consumidos no futuro é igualmente válido para economias mais complexas. (É claro, a introdução de mais de indivíduo torna possível o reconhecimento do aumento da produtividade inerente à divisão do trabalho, o que consequentemente tira o homem do seu atual estado de subsistência e ainda por cima torna possível a criação de um conjunto de poupanças). Em qualquer momento, os indivíduos de uma sociedade estarão envolvidos em um processo de produção cujo objetivo final é saciar algum "nível" de necessidade de consumo. Para que possa haver processos de produção mais longos - e, assim, mais produtivos - é necessário que alguns indivíduos tenham se abstido de consumir no passado para que outros indivíduos possam ser financiados e auxiliados na construção dessa nova estrutura, durante a qual eles não podem produzir - e, portanto, não podem consumir - bens de consumo utilizando os métodos da estrutura antiga.

A base da Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (TACE) é que a inflação do crédito distorce o processo acima descrito, fazendo aparentar que existem meios abundantes para a produção atual, quando, na verdade, os meios existentes são muito menores do que aparentam e, portanto, não sustentáveis (ao menos em algumas interpretações; vide Hülsmann [1998] para uma exposição "não-padrão" da TACE).

Dado que isso é na verdade uma ilusão (imprimir notas fiduciárias [Banco Central] ou criar empréstimos tendo como lastro depósitos a vista [sistema bancário de reservas fracionárias] significa meramente inflação, e de maneira alguma representam uma genuína poupança ou propriedade sobre alguma coisa; vide Hoppe et al. [1998]), os esforços dos empresários em criar uma estrutura de produção que na realidade não reflete as atuais preferências temporais do consumidor (manifestadas na poupança real disponível para a compra de bens de produção) vão terminar em colapso.

Qualquer tipo de economia que esteja acima do estágio mais primitivo já não faz mais uso do escambo, é óbvio; ela utilizará o dinheiro como meio de troca para superar o problema da ausência de uma dupla coincidência de desejos (se A está vendendo ovos e B tem um par de sapatos, como eles vão transacionar se A quiser uma gravata? Não está havendo aí uma dupla coincidência de desejos. Assim, apenas o dinheiro pode satisfazer ambas as necessidades, pois representa um meio indireto de troca). Deve-se enfatizar, no entanto, que além desse papel único, o dinheiro também é um bem em si, o bem mais comercializável que existe. Para que não haja dúvidas, o dinheiro será valioso até o ponto em que as pessoas estiverem dispostas a aceitá-lo numa troca. Ademais, o dinheiro deve primeiramente ter se originado como um bem diretamente aproveitável antes de se tornar um bem indiretamente aproveitável (i.e., dinheiro). Essa é a base do teorema da regressão de Mises (Mises [The Theory of Money and Credit]; Rothbard [Man, Economy, and State], capítulo 4).

Como em qualquer outra troca, uma pessoa pode achar, depois do ocorrido, que esta não foi do seu agrado; por exemplo, ela pode descobrir que o bem utilizado como dinheiro não é mais aceito pela "sociedade". Nesse aspecto, não há nada de único em relação ao dinheiro. O que há de único no dinheiro é o seu uso no cálculo econômico. Dado que todas as trocas são, em última instância, trocas envolvendo propriedade, uma unidade em comum que compare tais trocas é indispensável. Em particular, a quantidade de dinheiro na forma de poupança representa uma "medida" da quantidade de propriedade disponível para os processos de produção. (De fato, mesmo manter uma dada estrutura de produção requer alguma abstinência de consumo, para que a produção dedicada à manutenção ao invés de ao consumo seja efetuada).

Guardar dinheiro (na sua carteira, em uma lata de estanho no quintal, debaixo da cama, etc.) não é uma forma de poupança. O saldo de caixa - ou o efetivo disponível - pode aumentar sem que as preferências temporais tenham diminuído, que é o que ocorre quando se poupa. (Com efeito, uma pessoa poupa porque sua preferência temporal diminui). É possível que uma pessoa aumente seu efetivo disponível diminuindo seu gasto com consumo E TAMBÉM com bem bens de produção. Poupar, por outro lado, significa diminuir o gasto com bens de consumo e aumentar o gasto com bens de produção.

O fato de que poupar normalmente envolve um intermediário (i.e., um banco) que vai permitir que uma outra pessoa gaste com bens de produção em nada altera essa questão. O dinheiro é inerentemente um bem presente; guardá-lo significa que se está "comprando" alívio em relação a uma atual inquietação quanto a um futuro incerto. (Vide Hoppe [1994] e Hoppe et al. [1998] para uma discussão sobre a natureza do dinheiro). Fazer empréstimos que têm como lastro depósitos a vista (dinheiro de terceiros que, teoricamente, pode ser sacado a qualquer momento) não pode facilitar a compra de bens de produção (para a criação de bens futuros em detrimento de bens presentes) - e olhe que ainda nem estamos fazendo qualquer consideração quanto aos aspectos jurídicos envolvidos. (Clique aqui para ler sobre a ilegitimidade do sistema bancário).

O aspecto crucial em relação ao dinheiro é que ele permite o cálculo econômico, a comparação entre as receitas esperadas advindas de uma ação e os seus custos potenciais, tudo isso baseando-se em uma unidade comum. Ou seja, uma pessoa adquire propriedade em troca de outra propriedade tendo por base seu julgamento quanto ao futuro, e isso seria impossível - ou, mais ainda, sem sentido - caso não houvesse uma unidade comum para comparar as alternativas. Dinheiro é propriedade, e em um sistema monetário que faz parecer que existe mais propriedade para a produção do que de fato há, o colapso é inevitável.

Não é preciso tentar imaginar se os empresários "lêem" corretamente as taxas de juros ou não. Empresários fazem julgamentos sobre o futuro e, é claro, podem sempre estar potencialmente errados; o sucesso não pode ser sabido de antemão. Entretanto, os julgamentos sempre serão errados quando uma pessoa se defrontar com a ilusão de que há um maior conjunto de poupança do que as atuais preferências dos consumidores podem de fato justificar. Essa é exatamente a situação estabelecida pelo sistema bancário - como intermediários entre poupadores e produtores, ou "investidores" - atualmente no Ocidente. Esse sistema garante que haverá erros, não obstante não impeça o sucesso; daí a existência de um genuíno crescimento econômico ao lado de vários maus investimentos.

Essa análise não é uma insistência moralista para que a economia seja basicamente fundada em algo "real". É um reconhecimento de que meros desejos subjetivos não podem transformar em realidade mais propriedades do que as que já existem. Caso um sistema monetário dê a ilusão de que as preferências temporais dos consumidores - como fornecedores de propriedade para propósitos de produção - são menores do que realmente são, então a estrutura de produção construída sobre tal sistema é inerentemente equivocada. Quaisquer planos que aparentem ser plausíveis durante a fase inicial da expansão econômica (boom), inevitavelmente revelar-se-ão errados devido a uma insuficiência de propriedade (poupança real). Esse é o ponto mais importante da Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos.

Artigo retirado do sítio mises.org.br

3 de maio de 2010

ECB muda regras de colateral para não excluir títulos gregos dos ativos aceitos

Quem tenha estudado o processo de criação da moeda fiat ( veja artigo anterior 'Tentando explicar a taxa de juros' ) sabe que há uma relação de simbiose entre o estado, que emite títulos de dívida, e o BC e os bancos, que usam estes títulos como colateral para criar crédito do nada.

Quando o BC quer expandir o crédito, ele compra títulos da dívida pública - e segura eles.

A quantia paga pelo BC - magicamente surgindo do nada - é depositada no sistema bancário e - magicamente - passa a se multiplicar pelo mecanismo de reserva fracionária. A coisa funciona assim.

Para tirar crédito do mercado, o BC vende seus títulos para o mercado, o que retira moeda de circulação, e magicamente destrói a pirâmide de crédito em cima desta quantia.

Já que toda hora está manipulando o mercado de títulos do governo, frequentemente o BC também faz o papel de tesoureiro do governo, realizando a emissão e resgates destes títulos.

Se você conseguiu acompanhar até aqui, parabéns, já entende mais sobre o sistema monetário do que muitos economistas brasileiros.

O assunto que queremos focar agora é o seguinte. Um sistema monetário de moeda estatal com banco central é uma espécie de 'golpe' que várias nações foram dando ao longo do século 19 e 20 para poder controlar totalmente o sistema monetário, já que os investidores cismavam em colocar a mão no ouro e ir para a porta de saída conforme detectavam problemas, ou quando detectavam uma incoerência entre moeda estatal supostamente lastreada em ouro, e as reservas bem menores do que seria necessário. Muito da retórica da 'fuga de capitais' vem desta época. Os especuladores pagavam para ver e pegavam o tesouro de calças curtas.

Então os estados e os bancos se uniram e resolveram acabar com esta possibilidade de 'reality check'. Os bancos também já praticavam há séculos sua fraude primordial: realizavam empréstimos piramidados em cima dos mesmos depósitos à vista em ouro, se sujeitando aos 'reality checks' das corridas bancárias.

Então no novo sistema, tomando o lugar das 'reservas', desponta o título da dívida pública e a moeda fiat, que podem, sempre que for necessário ou conveniente se descolar de fundamentos e da realidade, e resolver ajustes graves colocando a mão na riqueza de terceiros (inflação). Há que se admirar a genialidade deste sistema que conseguiu realizar de uma maneira elegante o sonho do Rei Midas.

Dando mais um pulo na história chegamos ao Euro, criado por economistas já completamente doutrinados dentro do sistema monetário atual. Como na Europa ainda há a lembrança do comércio com uma moeda única (o padrão ouro) e suas enormes vantagens, estes economistas resolveram criar o 'frankenstein' euro, uma moeda transnacional como o ouro, mas lastreado na dívida de vários estados diferentes. Estes sistema está justamente passando por seu maior teste agora.

Enquanto no dólar ou no real é muito claro qual é o título usado para fazer a máquina monetária funcionar, no euro eles aceitam simplesmente qualquer título com boa classificação. Eles fizeram isso porque na prática precisam aceitar como colateral títulos dos países-membros, e não apenas da Alemanha ou França. Para dar uma imagem de transparência, criaram regras que estipulam o que pode ou não ser aceito. E todo mundo estava dentro do barco por um tempo.

Aí começa o perigo. Definiram uma linha de exclusão pelo 'credit-rating'. Há uma deterioração contínua dos títulos da Grécia, e também de Portugal, e vários outros, o que rebaixa estes títulos.

Ao serem rebaixados, títulos da dívida grega não poderiam mais girar a maquininha de criar crédito do ECB. Imagine as consequências para os bancos gregos e o estado grego... Aí vemos no Bloomberg a seguinte notícia : O ECB alterou as regras. Vivemos realmente em tempos admiráveis...

29 de abril de 2010

Tentando explicar a taxa de juros

Há muita confusão no Brasil sobre taxa de juros. Muitos enxergam uma simples conspiração bancária que conspira para manter juros altos e não entendem que às vezes os bancos lucram mais ainda emprestando 10x mais com juros mais baixos. Apontam o dedo para a vítima errada.

A maioria simplesmente não entende o que o mecanismo de alta e baixa de juros tem a ver com inflação e com a dívida pública. Faço uma tentativa de esclarecer este tema, pelo que aprendi através dos ensinamentos da Escola Austríaca e lendo material em inglês, pois em português predomina a politização e a desinformação sobre este importante assunto.


Há uma demanda natural de títulos da dívida do governo, que pagam uma certa remuneração que equilibra a demanda do estado por crédito e a vontade dos investidores de emprestar a uma certa taxa para um tomador de baixo risco, como é o caso do estado. As boas condições fiscais do estado assim como seu histórico de crédito são fundamentais para o mercado convergir em uma taxa mais alta ou mais baixa, dependendo da confiabilidade deste investimento.

Quando novos títulos entram no mercado já saturado, o governo precisa oferecer uma taxa marginalmente maior para que este lançamento seja bem sucedido - lembre que os títulos do governo estão competindo por investimentos com todos os outros possíveis. É como no final da feira, quando o feirante reduz os preços para limpar seu estoque, que no preço atual já não possui demanda.

Por outro lado, quando há título de menos, os investidores aceitam receber cada vez menos em juros, porque investir em títulos públicos é quase sempre mais seguro que emprestar para empresas. É análogo a uma feira onde não há tantos feirantes vendendo maçã, e o feirante - o estado - pode vender seu estoque de maneira mais vantajosa.

Mas ao contrário do que as pessoas pensam, a taxa de juros nestes títulos não é um preço-livre, como na feira.

Como o dinheiro nada mais é que um registro no sistema de contabilidade do Banco Central, o banco central pode efetivamente controlar a criação e destruição de crédito do sistema. Como sabemos, este preço fundamental dos juros tem impacto na economia toda.

O BC poderia fazer isso diretamente. Mas ao longo do tempo o mecanismo mais prático e efetivo para isso trabalha indiretamente.

O BC intervém no mercado de compra e venda de títulos do governo para colar a taxa destes títulos em sua 'taxa alvo', estipulada pela política monetária dentro de um paradigma que tenta um equilíbrio ótimo entre a expansão monetária e o controle da resultante inflação.

Vai haver mais crédito em circulação. Mantidas as mesmas condições de produção, teremos mais dinheiro competindo para comprar exatamente os mesmos bens. Haverá uma subida de preços. E este movimento beneficia muito quem bota a mão no dinheiro 'fresco' primeiro, às custas dos que não conseguem acesso ao crédito.
A produção e a eficiência na fabricação bens também sempre aumenta. Ao contrário da expansão monetária, este é um fenômeno que se origina no mundo real, e depende de progressos reais e uma maior eficiência dos produtores. Os limites para este crescimento de produtividade no Brasil dariam um belo debate, que é frequentemente evitado. É mais fácil trabalhar do outro lado da equação...

Em todo caso, o BC tenta, dada a situação macroeconômica do país, controlar os dois lados dessa equação de maneira que a inflação sempre exista, mas esteja dentro de uma meta.

Em uma situação normal viveríamos sob deflação constante, já que novos processos produtivos a cada ano produzem mais por menos. Isto até transparece em algumas áreas com muito acréscimo de produtividade, como a de tecnologia.

O BC pode tanto intervir muito ou intervir pouco neste mercado. Quando intervém muito, abaixa demais ou sobe demais os juros comparado com o preço do mercado. Aí precisa entrar agressivamente comprando ou vendendo títulos do governo para levar a taxa para o que eles querem.

Quando eles querem forçar uma baixa de juros, precisam 'comprar' parte do estoque de títulos disponíveis no mercado. Comprar está entre aspas pois eles pagam isso com crédito recém-criado. Essa é a 'mágica' da moeda fiat.

Este crédito compra um título no mercado, e esse dinheiro vai para o sistema bancário. Vai aumentar os depósitos no sistema. E esse crédito vai ser emprestado pelo banco para terceiros, que vão redepositar a quantia no banco. Aí o sistema bancário como um todo, apenas mantendo a chamada taxa de depósito compulsório, reimpresta o mesmo dinheiro até o permitido pelo BC. Na prática, o dinheiro injetado pelo BC é multiplicado.


O sistema monetário atual protege os bancos nesta prática, o que facilita a tomada de crédito e aumenta os lucros bancários, causa uma oferta artificialmente mais elevada de crédito, e, que em condições normais, estaria sujeita à corridas e quebras bancárias.

Mas nas condições 'sob controle' do banco central, este mecanismo pode ser evitado. Caso haja um movimento forte de retiradas, o BC efetivamente imprime dinheiro e manda caminhões e mais caminhões de papel para o banco com problemas.

Isto raramente acontece. A última vez que me lembre no Brasil foi durante um dos mandatos do Fernando Henrique.

Se um banco tem problemas repetidas vezes ( lembram do Banco Santos? ) o BC intervém e tira o banco do sistema.

Falando desta época, vale lembrar que o proceso monetário no Brasil antes do Real era completamente exótico e fora do controle. O estado emitia títulos a torto e direito para financiar seus contínuos déficits. Isso exigiria do estado cada vez mais recursos em juros. Mas aí o BC 'comprava' esses títulos a taxas baixas, efetivamente criando uma espiral de expansão monetária. Aí o mercado exigia ainda mais juros, para ter um lucro real, e por aí vai.

Quem possui mecanismos de defesa contra a inflação lucrava com ela. Os primeiros a lucrar eram governo e bancos. Era uma grande farra de bancos públicos nesta época, pois não importava o quanto estas instituições eram mal-gerenciadas, a inflação simplesmente cobria tudo.

Com os orçamentos era a mesma coisa. Um estado podia deixar suas receitas paradas no banco para no próximo mês ter recursos para pagar sua folha defasada. Aqui em Santa Catarina isso aconteceu algumas vezes.

Quando acabou a inflação, implodiu o esquema todo, destruíndo uma rede de interesses sinistra que se beneficiava com esse processo às custas dos brasileiros 'desindexados', geralmente de baixa renda. A real dívida pública acabou bastante elevada, e o governo federal precisou resgatar bancos estaduais, orçamentos dos estados, e outros 'cadáveres' enterrados. (Veja artigo sobre a expansão da dívida pública no governo FHC ).

Para terminar, nesta época o BC suspendeu completamente o multiplicador, aumentando os depósitos compulsórios para 100%. Isto foi um dos dispositivos que serviu para acabar com a inflação, entre outros mais acertados e menos acertados.

Como legado, o Brasil hoje tem uma das maiores taxas de depósitos compulsórios. Isso contribui muito para a solidez do sistema monetário brasileiro ( veja o que aconteceu mundo afora ). Porém, o preço que a gente paga, é a taxa de juros alta.

23 de fevereiro de 2010

Grécia ameaça mais que o Euro

Mais um artigo sobre a crise européia e seus efeitos na UE.

Em resumo, aponta, como já é comum em outros artigos, o grande erro que foi formar uma união monetária sem ter uma união política.


But there is no sign of any such move. Europe is stuck. So what has gone wrong? The problem is that the “economics first, politics later” method is almost Marxist in its assumption that economics will inevitably dictate a particular political response. But democratic politics involves choice.

Comento: Não vejo problema nenhum com uma ênfase na integração econômica da europa. O problema está na moeda fiat. A moeda fiat carrega em si os genes da organização estatal. O melhor nome para uma moeda deste tipo é extamente este: moeda estatal. Infelizmente o culto ao estado já é tão legitimizado que poucos se apercebem destas incongruências.

É impossível ter uma integração econômica livre e soberana através de uma moeda estatal criada por uma colcha de estados diferentes. Aí sim, seria necessário uma integração política - indesejável, para a maioria dos europeus. O euro tem um problema fundamental de design. Não sei se é possível consertá-lo. Não sei se é possível ter uma união monetária fiat. Duas possibilidades já foram testadas pela realidade: moeda baseada em commodity (ouro) ou uma europa sem moeda comum, com cada país emitindo a sua moeda.

O euro está sendo testado agora. E parece que não se sustentará.