19 de outubro de 2010
O retrato perfeito da guerra fiscal
http://www.youtube.com/watch?v=1UsYgeAa9-g
18 de outubro de 2010
A era do dólar-alface
Quando uma moeda é estável e os tempos são incertos, as pessoas guardam para se precaver contra alguma eventualidade. Mesmo que os depósitos nos bancos rendam 0%, por causa da incerteza da crise as pessoas vão fazer suas reservas.
Mas o estado moderno se coloca como provedor de tudo em caso de eventualidade, sempre com seus recursos infinitos saindo da cartola mágica. O estado se coloca como a única rede de proteção, e neste contexto os economistas cabeça-de-repolho enxergam a poupança como um inconveniente.
Veja aqui a tendência histórica americana comparada com outros países
http://perotcharts.com/2008/05/household-saving-rates-for-selected-countries/
A taxa de poupança americana mostra claramente uma queda ao longo dos anos em direção a zero. Aí com a crise, esta taxa sobe, como é esperado. E mesmo com o FED criando trilhões a mais, isto tem seu efeito inflacionário limitado porque este dinheiro novo não está entrando e se piramidando no sistema bancário.
http://research.stlouisfed.org/fred2/series/PSAVERT
As pessoas constroem poupança para o futuro por uma série de motivos. Podemos dizer que o capitalismo só se tornou possível com a estocagem de grãos. Antes disso o ser humano jamais poderia executar um projeto de longo-prazo sem depender da caridade ou de algum arranjo social, que lhe provesse com o alface sempre abundante enquanto maturava suas invenções.
O trigo seco sem ser moído dura uma eternidade. Enquanto aquela riqueza permanece armazenada em silos, pode ser usada como garantia na velhice ou para amenizar o sofrimento durante alguma seca. E sem depender absolutamente de ninguém e nem depender da produção futura de alface.
Note que um estoque de grãos não rende juros. Mas tem baixo risco, se este grão for protegido de fungos e do ataque de ladrões. É um ativo real.
Hoje em dia isto quase não existe, e a economia se transformou em um sistema de crédito piramidade sobre crédito com a base de poupanças praticamente nula.
Os EUA hoje, assim como o Brasil, é praticamente dependente de poupanças externas. Na Europa, apenas da França e Alemanha para cima é que temos um comportamento de poupança.
Na Ásia, vamos assistir em algumas décadas ao grande colapso japonês, com a queda abrupta nos níveis de poupança e redução demográfica.
O investimento hoje preferido é na taxação futura dos estados: os títulos do tesouro. Comprando um título desses um cidadão tem acesso à juros pagos com a taxação futura. Assim como a pirâmide da previdência, isto acaba por virar um pacto de exploração entre gerações: uma dívida pública erguida no tempo dos nossos pais é paga por nós hoje através de impostos e os juros altos. Assim também será nas economias dos países ricos.
Quando há uma crise vemos estas taxas de juros naturalmente aumentarem e há uma necessidade dos estados se reformarem e apararem gastos que já estavam sendo feitos contando o fácil acesso a financiamento a juros baixos.
Este é o caminho tomado pela Europa. Já nos EUA, nosso cabeça-de-repolho mor, Mr Bernanke, sonha em transformar o dólar em uma folha de alface. Pois digo que nada mais pretende com sua política de 'quantitative easing' que a inflação de ativos e mesmo de preços ao consumidor. Porque?
Porque quando ameaçado pela inflação, o consumidor gasta hoje, e não faz esta reserva para o amanhã. Da mesma maneira que Lula veio durante a crise para pedir que trabalhadores ameaçados de demissão gastassem suas economias em uma geladeira nova, Bernanke tenta, manipulando o dólar, criar a todo custo uma espiral inflacionária.
O verdadeiro problema do 'QE' é quando 'funcionar'. Se não funcionar e o dinheiro permance desalavancado e os preços em queda, eles simplesmente imprimem ainda mais dinheiro, até que a inflação apareça.
Eles fazem isso 'comprando' 2 trilhões de títulos do governo americano, que, por causa disso, tem suas taxas próximas de zero. O Fed hoje é o maior 'comprador' de dívida do governo americano. Comprador entre aspas porque quando eles fazem isto apenas imprimem dinheiro.
O FED quer ver o dólar virando alface e girando na economia para não ser reduzido pela inflação no dia seguinte. Que ver consumo, e que movimente a economia principalmente em todos aqueles setores e empreendimentos estúpidos que causaram a crise, em primeiro lugar. Três viagens de férias no exterior por ano, instumentos financeiros sem pé nem cabeça, casas no meio do nada, hotéis construídos em ilhas artificiais, spas para cachorros e por aí vai.
Mas o que aconteceria no mundo do dinheiro-alface quando há uma eventualidade? Obviamente o alface não pode ser armazenado como o grão. Imagine a cara do fazendeiro ao abrir seu silo e ao invés de encontrar grão se deparar com alface podre? E imagine que todo mundo está na mesma situação, e que não adianta ele recorrer ao governo nem 'à sociedade' para pedir ajuda. O que acontecerá? Colapso total da economia, como sempre acontece.
Quem não tiver ativos reais na mão vai se empobrecer muito com a era do dólar-alface. O destino final de toda moeda-alface na história sempre foi a lata de lixo da feira.
A reforma da grande pirâmide
http://en.wikipedia.org/wiki/Caritas_(Ponzi_scheme)
O governo da Romênia resisitiu a atacar este esquema de pirâmide com medo de protestos e da impopularidade. Soa familiar.
As pessoas adoram bolhas e pirâmides, esta é que é a realidade. Não há nenhum investimento real que chegue perto do retorno oferecido pelas pirâmides em seu começo.
O sistema de pensões é o maior esquema de Ponzi do mundo, deixa Maddof e Ponzi no chinelo, e causa grandes decepções em quase todos os países onde foi implantado e reformado com seus sucessivos remendos. Entretanto, quando foi implementado - no começo da pirâmide - fazia a alegria geral dos políticos e da população da época, que resolveram um problema prático sem gastar nada.
Em uma discussão em um espaço no blog do Kupfer coloquei algumas opiniões e conclui, no final, que no Brasil o sistema de pensões é um caso perfeito de importação de um sistema que não funciona para um país que não funciona.
Porque aqui, por razões demográficas, ainda haveria espaço para a pirâmide crescer antes do seu inevitável desmoronamento. Ou, seria possível remendar tando a pirâmide até que se tornasse uma loteria da longevidade, onde os que morrem antes pagam as pensões de quem morre depois. Tudo isso contrasta com a idéia popular de que contribuições previdenciárias são uma espécie de investimento. Não são.
Só que, no caso brasileiro em tempo recorde o sistema foi implodido em primeiro lugar por 1 milhão de funcionários federais, que tem seu sistema à parte, separado do INSS, com déficit anual de 25 bilhões de reais, e em segundo lugar por um dos maiores programas do mundo de distribuição de renda, feito pelo INSS, no qual os trabalhadores do setor privado garantem o pagamento de 1 salário mínimo para quem jamais contribuiu na pirâmide. Ambos apresentam déficit que cai no ministério da previdência. E o estado precisa pagar 10% ao ano de juros para cobrir este rombo.
Em um esquema de pensões legítimo há acumulação de poupança, e aplicação de juros sobre juros que fazem o montante crescer. Já no modelo estatal há acumulação de déficit, com os juros que fazem esta dívida crescer.
Notaram o absurdo da situação? Temos um esquema de pirâmide, que por si já não funciona, que no Brasil virou garantia de renda para o clero governamental e suas viúvas e virou programa social financiado pela pirâmide dos outros.
O déficit atual está em 50 bilhões por ano, no qual metade é só pra pagar as pensões dos funças.
Para aprender um pouco mais sobre este tema, geralmente abordado de maneira emocional e irracional, encomendei o livro do Fábio Giambiagi que está por 13 R$ nas Americanas:
http://www.americanas.com.br/produto/5603559/livros/economia/economiabrasileira/livro-reforma-da-previdencia:-o-encontro-marcado
Este é com certeza um dos temas que a imprensa não tem dado destaque ultimamente. Até parece que estamos em uma zona de prosperidade sem nenhum problema. Imaginem o que será deste país quando acordarmos do transe lulista e percebermos que temos um problema de dívida pública agravado pelos déficits previdenciários, uma situação que não se resolve sem uma boa dose de decepção.
14 de outubro de 2010
Aumentam importações americanas da China
Eu penso que as autoridades americanas sabem que ao desvalorizar o dólar não há como criar empregos nos EUA, porque a economia dos dois países é bastante diferente.
Mas eu acredito que eles pretendam duas coisas: em primeiro lugar, desvalorizando o dólar eles desvalorizam a dívida americana. O Fed já é o maior detentor de títulos do tesouro americano. Sim, a isto se chama monetização da dívida. Por isso não há crise fiscal como na Europa, e há sempre um comprador garantido a juros zero para o governo americano: o Fed.
O outro grande motivo, vendo estes números alarmantes da balança comercial, parece ser uma tentativa desesperada de interromper este processo.
O que tudo isso mascara, na verdade, é a falta de competitividade da economia americana. Tirando algumas empresas estelares como as de tecnologia, sobra uma economia bem menos competitiva do que Coréia do Sul, Japão e Alemanha.
Estes, by the way, acumulam saldos no comércio com a China. Então vejam que nem tudo nos EUA é culpa do Yuan desvalorizado.
Hoje uma das maiores exportações dos EUA para a China é lixo para reciclagem. A maior parte provenientes do final da vida de produtos que vieram da China. Isto indica o tamanho da distorção comercial entre os dois países, que certamente existe, mas não parece ser tão fácil de resolver com passes de mágica monetários.
Mas uma coisa que pode acontecer com essa desvalorização é o aumento das exportações agrícolas. A China passou a ser um grande importador de grãos, com a melhora da nutrição da população chinesa e sua maior demanda por carne. Embora não tenham tido muito incentivo para repetir a revolução de décadas anteriores, os EUA ainda são uma potência agrícola. Vendo nos gráficos do desemprego americanos até 2009 vemos que os estados do meio não foram tão afetados quanto costa leste e oeste.
No mais, tomei conhecimento de um desdobramento positivo da crise na Europa nesta área de alimentação: está praticamente terminada a era do 'buy organic', que passou a ser visto como sinônimo de caro.
Lembro quando morava lá em Dublin e via nas prateleiras do Marks and Spencer (supermercado caro) embalagens quase dizendo coisas do tipo: "organically produced by monks in Tibet using socially responsible techniques with zero carbon footprint and carbon-offset-airshipped into Europe". Quanta frescura...
Fenômeno mais de comportamento do que alimentar, o que agora está na moda é encher a barriga por menos mantendo a mesma qualidade, e mostrar austeridade.
13 de outubro de 2010
Inovações administrativas e pérolas sindicalistas
Por outro lado, quando confrontados, não conseguem apontar quase nenhuma conquista administrativa realizada pelo governo Lula. A maioria das 'conquistas' seria obtida por qualquer um que ocupasse o cargo e tomasse aquela única decisão crucial do governo Lula: não mexer nos controles da aeronave.
A mandracaria fiscal, como bem definiu Celso Ming, é um dos maiores legados administrativos do PT, assim como o vasto aparelhamento das empresas estatais e a ascenção dos sindicalistas a altos cargos de conselho.
O PT tem obviamente algumas características diferentes dos outros partidos, como a sua forte máquina de propaganda, e esse dom que eles tem de transformar medidas liberalizantes tomadas pelo Lula em um 'ato nacionalista', e as mesmas medidas quando eram tomadas pela oposição eram consideradas 'crime de lesa-pátria'.
Assim, a grande venda de ações da Petrobrás no exterior não é considerada como a venda da parte da empresa para os 'especuladores internacionais', e sim como 'grande sucesso'. A cessão de terras na Amazônia para o uso de propritários privados foi uma outra decisão liberal do governo Lula, provavelmente atendendo à pressão ambientalista internacional. Recentemente tivemos também a abertura de uma brecha para a educação em casa, estava sendo punida como crime pela lei brasileira.
Um outro programa que seria totalmente sabotado caso fosse tomado durante o governo do PSDB, e que hoje é um dos legados do Lula, foi o ProUni.
É evidente que o nosso ensino superior estatal é muito caro e não tem penetração com os alunos mais pobres, que precisam trabalhar para pagar mensalidades. Pode até ser resultado de um forte lobby das faculdades privadas no governo, mas isto não importa. O que importa é que um passo na direção certa, de um sistema misto de educação superior, assim como temos no Brasil na área da saúde.
Boa parte da esquerda radical encastelada nestes sindicatos sabe bem que o ProUni é uma privatização do ensino superior. Mas uma universidade não precisa ser estatal para ser pública, e o que realmente importa é que o acesso à educação é possível. Por isso apóio o ProUni.
Vejam que pérola neste jornalzinho de sindicato:
Prouni – O projeto de lei 3.582/2004 (Universi-dade Para Todos) autoriza a compra de 10% dasvagas ociosas nas universidades privadas em tro-ca de 100% de isenção de impostos. Esse sub-sídio, que poderá ultrapassar R$ 3,5 bilhões (qua-se mil reais mês/aluno!), permitiria a criação demais de 1,4 milhões de vagas nas públicas.
Façamos as contas e usemos o cérebro, coisa que a maioria dos sindicalistas se esquece depois de assumir suas posições. Dividindo os 3.5 bi R$ por 1.4 milhões de vagas que eles dizem que poderiam ser criadas nas universidades públicas, temos a cifra de 2500 R$ por aluno por mês.
É isso mesmo, custa caro pra caramba, isto é dentro da faixa que encontrei em outras análises, e os próprios dados dos sindicalistas afirmam isso.
Já no ProUni, como também afirmam os sindicalistas, o aluno custa 1000R$ por mês. Resultado, economia de 1500R$ por mês por aluno pelo ProUni.
Os valores citados por eles podem estar errados, mas é uma pérola ou não é? Quando começa a comparar custo-benefício entre o privado e o estatal, os sindicalistas podem fugir que só vão levar pancada.
http://www.sindisprevrs.org.br/site/material/jornaldasreformasP4.pdf
Inovações administrativas do PT
12 de outubro de 2010
A guerra dos vira-latas
Mas realmente não há tanta necessidade disso. O mundo monetário depois da crise está em plena fase de 'viralatização', como demostram o caminho seguido pelo vira-lata americano, britânico, suíço e japonês.
Os vira-latas gostam da companhia dos outros, o que lhes preserva um certo pedigree. Se o bulldog e o poodle e outros de boas credenciais estão buscando ossos nas latas de lixo da manipulação monetária, então não deve ter nada de errado com isso.
Assistimos a uma redefinição dos termos. Revirar a lixeira e fazer a maior baderna atrás de um osso agora é chamado de 'relaxamento nutricional'.
E se lançam um em cima do outro, derrubando a lixeira e perseguindo em círculos o rabo do vira-lata da frente, para ver quem ganha a corrida cambial, atrás de um suposto osso, que deve estar lá mas na verdade ninguém viu.
O que contrasta é que na Europa, apesar da salivação, os pastores-alemães ainda guardem o euro e assistam impassíveis a esta bagunça.
http://noir.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=ayiWehk3ohAU&pos=4
11 de outubro de 2010
"Melhor que Está Pode Ficar"
| Texto de Ilan Goldfajn para O Globo e O Estado de São Paulo. Publicado em: 05/10/2010 |
O resultado das eleições presidenciais está aí. Haverá segundo turno. E, com ele, a esperança de surgirem os programas para o próximo governo. Houve poucas propostas até agora. No tema econômico, o mote parece ter sido o inverso do Tiririca: “Melhor que está não fica”. Mas fica melhor sim. Apesar dos avanços significativos nas últimas duas décadas, o Brasil continua um país relativamente pobre e mal distribuído. Os países que souberam aproveitar o salto inicial para avançar mais colheram os frutos, os outros estagnaram ou até recuaram. Há questões relevantes para poder melhorar: como aproveitar o contexto internacional e a credibilidade adquirida para dar um novo salto ao desenvolvimento sustentável? Como facilitar a vida de quem trabalha, produz e investe no Brasil? Haverá financiamento para todos os investimentos necessários nos próximos anos? De que forma lidar com os gastos que aumentam, o câmbio que se fortalece e os juros reais que caem devagar? As oportunidades nunca estiveram tão presentes para o Brasil dar um novo salto. Em primeiro lugar, o Brasil se insere favoravelmente no contexto global. A necessidade de ajuste nos países desenvolvidos (como a redução dos gastos do consumidor nos EUA) cria demanda para que países emergentes ajudem com crescimento do seu mercado consumidor. O Brasil é sem dúvida um destes países. O crescimento e a formalização da economia, somados à eficácia das políticas sociais, têm gerado um novo mercado consumidor no Brasil. O crescimento da classe média no Brasil é substancial. Entre 2003 e 2008, cerca de 32 milhões de pessoas ingressaram nas classes A, B e C. Em 2003, as classes A, B, e C, somadas, correspondiam a 45% da população brasileira; em 2008, esse percentual subiu para 60%, e acreditamos que, em 2014, chegará a 67%. Esse processo terá implicações profundas sobre o ambiente de negócios no Brasil. Em segundo lugar, o Brasil fez o seu dever de casa. A conquista da estabilidade macroeconômica – como o controle da inflação - tem gerado dividendos para o desenvolvimento. O risco macroeconômico caiu substancialmente e a confiança no Brasil está em alta, o que tem se manifestado num processo de alongamento de prazos de investimento, queda (lenta) da taxa de juros real e formalização da economia. Como se aproveitar disso e dar o próximo passo? Há vários desafios à frente. Um deles é financiar adequadamente (ou seja, de forma sustentável macroeconomicamente) o investimento necessário nos próximos anos. Precisamos investir 25% do PIB, mas provavelmente “só” alcançaremos 22% pela falta de financiamento. Além dos investimentos necessários das empresas para satisfazer a demanda crescente dessa nova classe média, há os investimentos em recursos naturais que o mundo tanto demanda. Em especial, as descobertas no pré-sal vão exigir muito recursos, além de novas tecnologias. Existe, também, o desafio de continuar a encurtar o hiato habitacional hoje existente com maiores investimentos em residências. Sem falar nos compromissos assumidos com eventos esportivos como a Copa do mundo e as Olimpíadas. Para isso, o governo terá que investir em infraestrutura (por exemplo, portos, estradas, aeroportos e logística), encontrar o financiamento adequado para tal e estabelecer as condições para que o setor privado possa investir também. O problema é que o Brasil não abre mão dos gastos correntes para economizar recursos vitais para investimento. O cidadão gasta, o governo também. A poupança doméstica (privada e pública) encontra-se em níveis muito baixos. Na ausência de um ajuste fiscal considerável, o País acabará recorrendo à poupança externa para conseguir financiar o crescimento dos próximos anos. Isso significará um maior déficit em conta corrente, consistente com um câmbio real valorizado pela entrada de capitais. Um ajuste fiscal no presente (e reforma da previdência no futuro) permitirá um novo salto para mais investimento, sem déficits externos maiores. Outro gargalo é na educação. O crescimento sustentável demanda avanços nessa área. É preciso ênfase no acúmulo de conhecimento, na formação de indivíduos que sejam capazes de ser produtivos, de resolver problemas e liderar. Apesar dos avanços no acesso à educação (todos frequentam o ensino fundamental, e 80% o ensino médio), a qualidade ainda é ruim. Continuamos com mau desempenho nos testes de proficiência internacionais. Quase 80% dos nossos alunos de 15 anos não obtiveram a proficiência mínima em Matemática (comparados com apenas 2% na Coreia do Sul). Em Leitura e Ciências, 64% e 57% não obtiveram a proficiência mínima (comparados com zero e 2% na Coreia do Sul). Interessante é que apenas gastar mais não resolve. Gasta-se no Brasil em educação o equivalente ao que se gasta na Coreia do Sul (acima de 4% do produto interno bruto), com resultados bem inferiores. Não basta simplesmente realocar recursos para educação, é necessário planejar e colocar os incentivos corretos para que professores e escolas levem os alunos a um desempenho melhor. Outro aspecto é a ênfase na eficiência na gestão econômica. Há um número grande de pequenas medidas que facilitariam a vida das empresas e indivíduos: otimizar os processos, reduzir a burocracia, incentivar o bom atendimento ao cidadão. A reforma tributária seria uma medida maior nessa busca da eficiência. Na gestão macroeconômica, a eficiência requer uma recomposição dos instrumentos. Temos que permitir que os juros não sejam nossa âncora exclusiva da responsabilidade. Menos expansão fiscal (via gastos e crédito público) permitiria uma convergência mais rápida dos juros a padrões internacionais, o que também aliviaria a pressão de apreciação do câmbio. Enfim, melhor que está pode ficar. Agora é o momento crucial. Ilan Goldfajn é economista-chefe do Itaú Unibanco. |
Cortejando mercados e ajudando governos ao mesmo tempo
A Europa, ao contrário dos EUA, está seguindo o caminho difícil na crise, fazendo ajustes fiscais e torcendo para que reformas estruturais ajudem no médio prazo. No curto prazo sabemos que, com QE ou sem, não há solução. O euro tem se valorizado porque o ECB, ao menos por enquanto, não está caindo de cabeça na solução mágica de imprimir dinheiro para desvalorizar a própria moeda e ver se a crise vai embora.
Porque diferente dos EUA a Europa tem a crise do Euro, a crise fiscal, e não é louca de entrar em QE porque realizar um calote desses sem muita consequência imediata só mesmo quem controla a moeda de reserva - o dólar.
É neste contexto que a China apóia a Europa, e se dispõe a entrar com o que falta no momento por lá: dinheiro vivo para comprar títulos dos governos europeus. Eles querem outro mercado forte e maduro para levar o mesmo esquema que operavam com os EUA: vocês recebem nossos produtos e nos pagam com títulos da dívida pública.
Aparentemente o que pode ser um arranjo ruim para os EUA pode não ser tão inconveniente assim no atual momento Europeu. Porque o maior problema por lá é o fiscal, e não o das exportações.
Tarso Genro e a beata Dilma
Um declaração coerente, de um político que sempre foi declaradamente contra posturas conservadoras e religiosas. É difícil saber o que irrita Tarso Genro mais. Se o 'T' de tradição, se o 'F' de família ou o 'P' de propriedade.
É com essa intolerância que o PT enxerga o conservadorismo religioso, seja católico ou evangélico. Um obstáculo a ser removido. Só tem um problema: como bem aponta Olavo de Carvalho, somos um país maciçamente conservador, e isto é forte especialmente entre o eleitorado do próprio Lula.
A candidata Dilma hoje está pagando promessa em Aparecida. Uma rápida conversão religiosa como nunca na história deste país.