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26 de maio de 2012

Uma brincadeira de crianças


Os alemães tem sido convencidos pela seu status-quo de que os problemas da Europa tem origem na periferia, e não se dão conta de que décadas de crescimento econômico falso foi também patrocinada pelo Euro na própria Alemanha.

A indústria alemã esteve este tempo todo brincando de um jogo que brincávamos quando crianças com nossos amigos.

Primeiro colocávamos todos os nossos brinquedos favoritos em uma mesa - carrinhos, revistas, figurinhas.

-Não, não pode brincar ainda. Precisa comprar com dinheiro.

E aí, para alívio de todos, distribuíamos o dinheirinho do 'Banco Imobiliário' para todos. Agora pode escolher qual você quer comprar. Naquela idade, diversão garantida.

Bem, a grande diferença é que ninguém se importava em usar isso para produzir estatísticas tais como 'crescimento de PIB'. E sempre recolhíamos no final da brincadeira nossos brinquedos e nosso dinheirinho de brincadeira.

22 de agosto de 2011

Rebeldes com causa e sem causa

Como eu gostaria que à frente desse movimento Tea Party estivesse o Ron Paul. Mas a política sendo o que é, veremos no Tea Party uma mistura de temas para agradar ao eleitorado mais conservador, inclusive itens da agenda religiosa e conservadora, o que vai atrair algumas críticas fáceis.

Agora, o que interessa para a recuperação é saber se austeridade e equilíbrio de contas sem aumento de impostos continuará no pacote desse movimento ou não, uma vez sentidos os efeitos. Porque assistencialismo também pode fazer parte da agenda religiosa e conservadora.

Mesmo assim, vejo mesmo no Tea Party dos EUA algo muito mais próximo da atitude cívica de um cidadão adulto do que um monte de 'indignados' com o término dos programas sociais, culpando bodes expiatórios ( FMI, Merkel, Banco Mundial ) e cantando hinos em praça pública.

Rumo, eles não tem. Se soubessem algo sobre mercado de trabalho, exigiriam, por exemplo, a redução dos entraves trabalhistas espanhóis. O tipo de proposta que não causa a mínima excitação nestes grupos.

Ao contrário, exigem empregos e assistencialismos, de maneira não muito diferentes dos rioters do Reino Unido, que 'exigem' um gadget ou um produto, sendo que estes já não chamam isso de democracia, e simplesmente quebram a vidraça e pegam o que querem.

Mas revolta e energia de sobra eles tem, e no pior caso isso pode levar para a Europa agitações violentas como a das capitais da primavera árabe. Se formos ver o perfil social da primavera árabe, jovens, formados, confusos e sem futuro, veremos que a Europa não está tão longe assim dessa realidade.

Apesar disso, os tea-parties, com propostas reais e organizando reuniões em seus quintais é que vão ser chamados de fanáticos.

19 de novembro de 2010

A sorte e o azar dos irlandeses

Um tema econômico que me tornei especialista in loco é a crise irlandesa, pois morei em Dublin durante o boom espetacular que eles tiveram e retornei ao Brasil quando começou a crise, sabendo que ia levar algum tempo até toda a sujeira começar a sair de baixo do tapete, mas que daquele ponto em diante seria ladeira abaixo.

Em primeiro lugar, tenta-se esquivar da responsabilidade individual os milhões de irlandeses e também muitos estrangeiros que entraram de cabeça na bolha imobiliária irlandesa como se fosse uma aposta certa. A corrupção de um sistema econômico não é algo que esteja apenas delimitado entre grandes banqueiros e grandes redes de interesse. Praticamente todo mundo sem muita experiência e conhecimento financeiro participou da bolha imobiliária. Era impossível falar meia hora com um Irlandês sem que o tópico imobiliário aparecesse na conversa.

Muitos com um pouco mais de noção imaginavam os riscos. Mas como estes riscos levariam o país inteiro abaixo, acreditavam que havia uma garantia implícita do sistema. Ou seja, o mesmo tipo de moral hazard que afeta o comportamento econômico dos bancos também afeta a população inteira.

Bem poucos entendiam os mecanismos do Euro, ou o que realmente significa fazer parte da zona do Euro, para além das experiências mais quotidianas do uso desta moeda. Uma garantia do sistema bancário e da bolha imobiliária irlandesa não poderia vir do próprio tesouro irlandês.

Eles bem que tentaram cumprir o plano, e resgatar os bancos com fortes conexões políticas com verbas públicas. Mas a Irlanda é um país bastante pequeno, com um orçamento público bastante limitado. O professor Morgan Kelly do UCD resumiu bem: 'cada centavo de imposto dos próximos 2 ou 3 anos iria para cobrir a quebra do Anglo Irish Bank ( o mais 'financeiramente ousado' dos bancos irlandeses ). Cada centavo dos próximos 2 anos para cobrir o AIB. E cada centavo do ano em seguida para todos os outros.'.

Então agora que a situação mostra sua incorntonabilidade, a União Européia ( leia-se Alemanha ) vem oferecer ajuda financeira, e convencer o governo Irlandês a aceitar o pacote, coisa que traz também uma crise política e tem profundas consequências de longo-prazo na soberania irlandesa, pois pode significar a morte da Irlanda como paraíso fiscal e como uma plataforma eficiente para o estabelecimento de empresas globais no velho continente.

Entender o 'sistema' irlandês não é coisa fácil para um político alemão, francês ou mesmo um brasileiro. Acostumados a viver em grandes economias, com um grande mercado interno e sob a sombra onipotente de um governo devorador de recursos, eles acreditam que a carga tributária pode ser arbitrariamente alta sem quase nenhum efeito negativo na geração de renda e empregos. Porque eles acreditam - parcialmente com razão - que as empresas globais irão pagar qualquer coisa para entrar nestes mercados.

Mas imagine-se na posição de uma autoridade de praticamente uma cidade-estado, como Dubai ou Cingapura, ou de um pequeno e empobrecido país como a Irlanda. Para uma economia desse porte não há coação econômica possível, e nem arranjo sindical de poder econômico interno que ofereça ganhos comparáveis aos do mercado internacional. E vejam que eles já sabem isso por experiência própria. Já passaram por uma fase de impostos altíssimos, alto nível de atividade sindical e de estatização da economia. Obviamente que não funciona, nem para um país grande e muito menos para uma economia pequena.

Então a economia se desenvolveu em direção a um modelo bastante eficiente e enxuto, com baixa carga de impostos, muitos atrativos para que empresas globais estrangeiras se estabeleçam no país. Não é à toa que as zonas de Duty Free nos aeroportos foram inventadas na Irlanda. Nos anos 80 se estabeleceu um grande centro financeiro que praticamente fechava a contabilidade global de muitas empresas. E nos anos 90 e 2000 se consolidou a política de apoio ao investimento estrangeiro, com uma carga de impostos entre as mais baixas do mundo e certamente a mais baixa da Europa.

Como resultado temos a massiva entrada de investimentos estrangeiros e a criação de muitos empregos com alto valor agregado. Temos ampla oferta de emprego para a população nativa de todos os níveis. Destaca-se o grande investimento feito na Irlanda na área educacional. Mas, apesar disso, é natural que existam muitas vagas técnicas que não podem ser supridas internamente no tempo desejado. Aí começa a se delinear a política do país em relação à imigração.

A imigração em um país antigo é sempre um assunto complicado. A Irlanda experimentou historicamente emigração em massa, e recentemente imigração em massa, com grande entrada de especialistas de fora da EU, e grande entrada de trabalhadores internos da EU em todos os nível e praticamente de todos os países. Especialmente indicativo foi o ingresso dos jovens recém-formados de países do centro, assim ditos prósperos e ricos, como França, Itália e Alemanha, porém sem oportunidades de trabalho para quem, por ser jovem ou por não ter alto nível de formação, não está bem dentro do sistema caro que eles criaram.

Aí pensamos por um minuto: o que os irlandeses, e, principalmente, os grupos políticos e econômicos locais ganham com este processo?

Basta imaginar: entrada em massa de empresas estrangeiras, entrada de investimento estrangeiro. Vão precisar de escritórios, edifícios, transporte, serviços. Esta parte era majoritariamente executada por empresários irlandeses. O maior indicador do nível de integração de uma pessoa à sua cidade ou país é o quanto de propriedade, terras e imóveis, esta pessoa tem. Os impostos para empresas são baixos. Há um monte de imigrantes. A terra é controlada pelos interesses políticos nativos, e se valoriza naturalmente. E assim todos os locais se beneficiam, com a inflação de preços dos aluguéis e dos serviços para estes profissionais das empresas de alto-valor agregado.

Eles criaram um complicado sistema de licenças de construção, que eram reguladas e exploradas por empresários e indivíduos com conhecimento e trânsito por esta burocracia complicada. Para construir na Irlanda você praticamente tem que entrar em uma sociedade secreta. Acredite ou não, em algumas áreas do país apenas nativos podiam construir!

Logo é natural que o setor governamental, bancário, de construção, serviços e arquitetura fizesse a festa.

E o melhor ainda estava por vir. Com a entrada em massa de imigrantes especializados para ocupar estes postos de trabalho de alto valor, se criou um mercado enorme de aluguel para profissionais, sejam irlandeses de outras cidades ou estrangeiros. Qualquer irlandês com uma casa subitamente tinha uma fonte de renda. Muitos se tornaram 'landlords', ou proprietários de imóveis para alugar, algo que na cultura de influência britânica deles é um baita símbolo de status.

Isto tudo somado, evidentemente, às falhas do sistema monetário já bastante comentadas neste blog, criaram uma dinâmica que levou a uma das maiores bolhas imobiliárias da história.

No auge da coisa, pessoas compravam casas em lugares que elas não queriam porque tinham medo de nunca mais poder alcançar os preços dos imóveis. Eu vi isso com muita tristeza, porque afetava amigos e pessoas próximas. Tomavam crédito a pagar em 35-40 anos, com taxas promocionais de curta duração. Era evidente que haveria um problema. E se multiplicavam os programas na televisão contando as estórias de especuladores imobiliários de sucesso. E os irlandeses que ganharam dinheiro saiam Europa afora dobrando a aposta e comprando propriedade em outros países.

O maior indicador de que você está vivendo em uma bolha é quando você começa a evitar certos assuntos. E um assunto que daria o status de pária em qualquer roda de conversa em Dublin era o eventual colapso da bolha imobiliária irlandesa - que quebraria em sequência os bancos, as empresas de construção, e o tesouro público. O setor de serviços, como bares, restaurantes, seria fortemente afetado. Isto levaria a uma emigração dos estrangeiros não-especializados, o que enfraqueceria ainda mais a demanda por casas e imóveis. A sequência lógica destes acontecimentos era impressionante. E não é que a lógica, como sempre, estava correta?

Mas o pior ainda está por vir. Ao aceitar o pacote de ajuda europeu, a Irlanda vai praticamente renunciar à soberania fiscal. Aí o país deixa de ser um centro de atração para o capital estrangeiro, para empresas de ponta, que podem escolher outros países da Europa com carga tributária igualmente elevada. E o país voltaria a ser o que sempre foi, uma ilha da periferia da Europa.

19 de outubro de 2010

Os jovens franceses preferem investir no futuro dos velhos

Estudantes em toda parte do mundo são um importante recurso político na mão de partidos radicais. Eles se resumem a uma coisa: massa de manobra.

Não estudam, não entendem nada, não são capazes de ver que são precisamente o grupo mais prejudicado pelo sistema atual de pensões, baseado na lógica atuarial do esquema de Ponzi.

O abundante tempo livre e a enorme carga de testosterona destes jovens é capitalizada pela esquerda francesa há décadas.

Mas melhor ainda do que estudantes são sindicatos-chave que podem parar o país como estamos vendo. Este é a grande vantagem de controlar o movimento sindical.

Há um lado confuso de protesto, mas principalmente o que vemos são táticas de uso da força por parte de partidos organizados, para atingir objetivos políticos.

Obviamente se eles estivessem no governo, assim como Sarkozy e o nosso Lula, estariam também aumentando a idade mínima, para ‘defender o resgate do cidadão sênior no mercado de trabalho’, lutando pelo 'direito ao trabalho na terceira idade' e outras ensaboações análogas.

Aí os estudantes e os sindicatos iam achar lindo.

Mas a razão, desconfortável e verdadeira, é que essa conta não fecha.

11 de outubro de 2010

Cortejando mercados e ajudando governos ao mesmo tempo

Sabia que a China apoiava o mercado de títulos europeus, mas não tinha ainda ligado as coisas e observado pelo ponto de vista Chinês.

A Europa, ao contrário dos EUA, está seguindo o caminho difícil na crise, fazendo ajustes fiscais e torcendo para que reformas estruturais ajudem no médio prazo. No curto prazo sabemos que, com QE ou sem, não há solução. O euro tem se valorizado porque o ECB, ao menos por enquanto, não está caindo de cabeça na solução mágica de imprimir dinheiro para desvalorizar a própria moeda e ver se a crise vai embora.

Porque diferente dos EUA a Europa tem a crise do Euro, a crise fiscal, e não é louca de entrar em QE porque realizar um calote desses sem muita consequência imediata só mesmo quem controla a moeda de reserva - o dólar.

É neste contexto que a China apóia a Europa, e se dispõe a entrar com o que falta no momento por lá: dinheiro vivo para comprar títulos dos governos europeus. Eles querem outro mercado forte e maduro para levar o mesmo esquema que operavam com os EUA: vocês recebem nossos produtos e nos pagam com títulos da dívida pública.

Aparentemente o que pode ser um arranjo ruim para os EUA pode não ser tão inconveniente assim no atual momento Europeu. Porque o maior problema por lá é o fiscal, e não o das exportações.

21 de setembro de 2010

Irlanda e a crise : segundo páreo

O tempo passa, a sujeira varrida para baixo do tapete começa a se espalhar na sala novamente, e a Irlanda precisa pagar a conta das decisões tomadas por seus políticos de resgatar bancos corruptos como o Anglo-Irish bank, que se alavancaram ao máximo no então irresistível boom imobiliário para depois ser catapultado na rede de proteção oferecida pelo tesouro irlandês, bastante limitado em recursos.

O leilão de títulos na terça foi bem-sucedido. Mas os juros pagos chegaram a 6%, a mesma taxa disponível se eles resolvessem pedir ajuda à União Européia.

Antes transcorrendo sem nada digno de nota, cada leilão de títulos de dívida irlandesa agora traz mais emoções do que as tradicionais corridas de galgos.

http://www.ft.com/cms/s/0/7dbb737a-c55a-11df-9563-00144feab49a.html?ftcamp=rss

20 de maio de 2010

Um irmão morando na Grécia

Tenho um irmão morando em Creta e abaixo ele descreve um pouco do impacto da crise por lá:
Os impactos ainda não chegaram a fazer tanta diferença, pois tentamos viver de modo econômico, comprando as coisas mais baratas possíveis no supermercado e etc. Além disso meu pagamento do Brasil não é afetado e os adicionais que recebo por aqui também não devem ser enquanto os projetos não terminarem.
Mudanças que já estamos sofrendo mesmo antes deste último pacotão:
- Academia está mais cara;
- Faz cerca de um mês a gasolina foi de cerca de 1,3 euros para 1,6 euros, e com as novas taxas deve chegar a 2 euros em breve. Na baixa do preço do barril, chegamos a pagar 90 centavos por litro.
- Contas de água e energia elétrica já vieram com 2% a mais de imposto (e não está claro para mim se o imposto vai aumentar mais ou não). A próxima conta de telefone deve vir com 2% de imposto a mais também.
- Alguns produtos do supermercado (principalmente de marcas) já aumentaram de preço, mas ainda não foi para valer. As marcas do próprio supermercado ainda não aumentaram. Tudo deve aumentar a partir de junho por causa das novas taxas.
- Várias lojas no centro encerraram as atividades e não há sinal de que alguém vá iniciar um novo negócio no mesmo lugar.
- Paralizações de 24 h acontecendo com mais frequencia. A Ana teve que deixar Creta mais cedo quando foi para o Brasil por causa de greve. Hoje tem greve.
- RU aumentou um centavo de euro.
- Logo no início da crise fizeram algumas reformas no serviço público (para inglês ver), e logo no primeiro dia da reforma tive que fazer um exame médico. Tive que esperar 15 dias para conseguirem descobrir onde os alunos da universidade devem solicitar a autorização para realizar o exame médico. Ninguém sabia.
- Nossa vizinha teve a carga horária dela reduzida em uma escola particular e vários pais estão inadimplentes.
- Como fico abaixo do mínimo na declaração de IR, o governo retem na fonte acho que 21% do que eu recebo (daqui da Grécia) e depois devolve 18%. A partir de maio eles vão reter mais (não sei quanto) e vão devolver menos (acho que ficarão com 6% ao invés de 3%). Por sinal, a devolução deste ano não sei se vem nem quando vem.

19 de maio de 2010

Entrevista do Armínio Fraga na TV Estadão

Armínio Fraga da Gávea Investimentos e ex-presidente do BC brasileiro dá sua análise de especialista sobre a crise européia.

14 de maio de 2010

O ataque dos lobos especuladores

Na figura acima, vemos dois líderes europeus mostrando como é possível domesticar estes animais tão arredios.

30 de abril de 2010

Desemprego espanhol atinge 20%

Um dos países mais afetados pela expansão do mercado imobiliário, a Espanha é também um dos países que agora está mais sofrendo com a crise.

http://www.ft.com/cms/s/0/c39f1320-5443-11df-b75d-00144feab49a.html