Um tema econômico que me tornei especialista in loco é a crise irlandesa, pois morei em Dublin durante o boom espetacular que eles tiveram e retornei ao Brasil quando começou a crise, sabendo que ia levar algum tempo até toda a sujeira começar a sair de baixo do tapete, mas que daquele ponto em diante seria ladeira abaixo.
Em primeiro lugar, tenta-se esquivar da responsabilidade individual os milhões de irlandeses e também muitos estrangeiros que entraram de cabeça na bolha imobiliária irlandesa como se fosse uma aposta certa. A corrupção de um sistema econômico não é algo que esteja apenas delimitado entre grandes banqueiros e grandes redes de interesse. Praticamente todo mundo sem muita experiência e conhecimento financeiro participou da bolha imobiliária. Era impossível falar meia hora com um Irlandês sem que o tópico imobiliário aparecesse na conversa.
Muitos com um pouco mais de noção imaginavam os riscos. Mas como estes riscos levariam o país inteiro abaixo, acreditavam que havia uma garantia implícita do sistema. Ou seja, o mesmo tipo de moral hazard que afeta o comportamento econômico dos bancos também afeta a população inteira.
Bem poucos entendiam os mecanismos do Euro, ou o que realmente significa fazer parte da zona do Euro, para além das experiências mais quotidianas do uso desta moeda. Uma garantia do sistema bancário e da bolha imobiliária irlandesa não poderia vir do próprio tesouro irlandês.
Eles bem que tentaram cumprir o plano, e resgatar os bancos com fortes conexões políticas com verbas públicas. Mas a Irlanda é um país bastante pequeno, com um orçamento público bastante limitado. O professor Morgan Kelly do UCD resumiu bem: 'cada centavo de imposto dos próximos 2 ou 3 anos iria para cobrir a quebra do Anglo Irish Bank ( o mais 'financeiramente ousado' dos bancos irlandeses ). Cada centavo dos próximos 2 anos para cobrir o AIB. E cada centavo do ano em seguida para todos os outros.'.
Então agora que a situação mostra sua incorntonabilidade, a União Européia ( leia-se Alemanha ) vem oferecer ajuda financeira, e convencer o governo Irlandês a aceitar o pacote, coisa que traz também uma crise política e tem profundas consequências de longo-prazo na soberania irlandesa, pois pode significar a morte da Irlanda como paraíso fiscal e como uma plataforma eficiente para o estabelecimento de empresas globais no velho continente.
Entender o 'sistema' irlandês não é coisa fácil para um político alemão, francês ou mesmo um brasileiro. Acostumados a viver em grandes economias, com um grande mercado interno e sob a sombra onipotente de um governo devorador de recursos, eles acreditam que a carga tributária pode ser arbitrariamente alta sem quase nenhum efeito negativo na geração de renda e empregos. Porque eles acreditam - parcialmente com razão - que as empresas globais irão pagar qualquer coisa para entrar nestes mercados.
Mas imagine-se na posição de uma autoridade de praticamente uma cidade-estado, como Dubai ou Cingapura, ou de um pequeno e empobrecido país como a Irlanda. Para uma economia desse porte não há coação econômica possível, e nem arranjo sindical de poder econômico interno que ofereça ganhos comparáveis aos do mercado internacional. E vejam que eles já sabem isso por experiência própria. Já passaram por uma fase de impostos altíssimos, alto nível de atividade sindical e de estatização da economia. Obviamente que não funciona, nem para um país grande e muito menos para uma economia pequena.
Então a economia se desenvolveu em direção a um modelo bastante eficiente e enxuto, com baixa carga de impostos, muitos atrativos para que empresas globais estrangeiras se estabeleçam no país. Não é à toa que as zonas de Duty Free nos aeroportos foram inventadas na Irlanda. Nos anos 80 se estabeleceu um grande centro financeiro que praticamente fechava a contabilidade global de muitas empresas. E nos anos 90 e 2000 se consolidou a política de apoio ao investimento estrangeiro, com uma carga de impostos entre as mais baixas do mundo e certamente a mais baixa da Europa.
Como resultado temos a massiva entrada de investimentos estrangeiros e a criação de muitos empregos com alto valor agregado. Temos ampla oferta de emprego para a população nativa de todos os níveis. Destaca-se o grande investimento feito na Irlanda na área educacional. Mas, apesar disso, é natural que existam muitas vagas técnicas que não podem ser supridas internamente no tempo desejado. Aí começa a se delinear a política do país em relação à imigração.
A imigração em um país antigo é sempre um assunto complicado. A Irlanda experimentou historicamente emigração em massa, e recentemente imigração em massa, com grande entrada de especialistas de fora da EU, e grande entrada de trabalhadores internos da EU em todos os nível e praticamente de todos os países. Especialmente indicativo foi o ingresso dos jovens recém-formados de países do centro, assim ditos prósperos e ricos, como França, Itália e Alemanha, porém sem oportunidades de trabalho para quem, por ser jovem ou por não ter alto nível de formação, não está bem dentro do sistema caro que eles criaram.
Aí pensamos por um minuto: o que os irlandeses, e, principalmente, os grupos políticos e econômicos locais ganham com este processo?
Basta imaginar: entrada em massa de empresas estrangeiras, entrada de investimento estrangeiro. Vão precisar de escritórios, edifícios, transporte, serviços. Esta parte era majoritariamente executada por empresários irlandeses. O maior indicador do nível de integração de uma pessoa à sua cidade ou país é o quanto de propriedade, terras e imóveis, esta pessoa tem. Os impostos para empresas são baixos. Há um monte de imigrantes. A terra é controlada pelos interesses políticos nativos, e se valoriza naturalmente. E assim todos os locais se beneficiam, com a inflação de preços dos aluguéis e dos serviços para estes profissionais das empresas de alto-valor agregado.
Eles criaram um complicado sistema de licenças de construção, que eram reguladas e exploradas por empresários e indivíduos com conhecimento e trânsito por esta burocracia complicada. Para construir na Irlanda você praticamente tem que entrar em uma sociedade secreta. Acredite ou não, em algumas áreas do país apenas nativos podiam construir!
Logo é natural que o setor governamental, bancário, de construção, serviços e arquitetura fizesse a festa.
E o melhor ainda estava por vir. Com a entrada em massa de imigrantes especializados para ocupar estes postos de trabalho de alto valor, se criou um mercado enorme de aluguel para profissionais, sejam irlandeses de outras cidades ou estrangeiros. Qualquer irlandês com uma casa subitamente tinha uma fonte de renda. Muitos se tornaram 'landlords', ou proprietários de imóveis para alugar, algo que na cultura de influência britânica deles é um baita símbolo de status.
Isto tudo somado, evidentemente, às falhas do sistema monetário já bastante comentadas neste blog, criaram uma dinâmica que levou a uma das maiores bolhas imobiliárias da história.
No auge da coisa, pessoas compravam casas em lugares que elas não queriam porque tinham medo de nunca mais poder alcançar os preços dos imóveis. Eu vi isso com muita tristeza, porque afetava amigos e pessoas próximas. Tomavam crédito a pagar em 35-40 anos, com taxas promocionais de curta duração. Era evidente que haveria um problema. E se multiplicavam os programas na televisão contando as estórias de especuladores imobiliários de sucesso. E os irlandeses que ganharam dinheiro saiam Europa afora dobrando a aposta e comprando propriedade em outros países.
O maior indicador de que você está vivendo em uma bolha é quando você começa a evitar certos assuntos. E um assunto que daria o status de pária em qualquer roda de conversa em Dublin era o eventual colapso da bolha imobiliária irlandesa - que quebraria em sequência os bancos, as empresas de construção, e o tesouro público. O setor de serviços, como bares, restaurantes, seria fortemente afetado. Isto levaria a uma emigração dos estrangeiros não-especializados, o que enfraqueceria ainda mais a demanda por casas e imóveis. A sequência lógica destes acontecimentos era impressionante. E não é que a lógica, como sempre, estava correta?
Mas o pior ainda está por vir. Ao aceitar o pacote de ajuda europeu, a Irlanda vai praticamente renunciar à soberania fiscal. Aí o país deixa de ser um centro de atração para o capital estrangeiro, para empresas de ponta, que podem escolher outros países da Europa com carga tributária igualmente elevada. E o país voltaria a ser o que sempre foi, uma ilha da periferia da Europa.
19 de novembro de 2010
11 de novembro de 2010
O que a imprensa nacional não disse sobre o caso Panamericano
De acordo com o blog do FT, o Panamericano passou a colocar carteiras de créditos que já havia vendido em seu balanço, por causa daquela famosa 'marolinha', que ia quebrar o banco.
Aí, surpresa, a cavalaria aparece e o estado compra o Banco Votorantim, a Caixa compra metade do Panamericano, deixando o controle na mão de um genro do Sílvio Santos formado em Educação Física.
http://blogs.ft.com/beyond-brics/2010/11/11/panamericano-affair-turns-spotlight-on-brazils-credit-boom/
http://blogs.ft.com/beyond-brics/2010/08/12/consumer-defaults-on-the-rise-in-brazil/
Aí, surpresa, a cavalaria aparece e o estado compra o Banco Votorantim, a Caixa compra metade do Panamericano, deixando o controle na mão de um genro do Sílvio Santos formado em Educação Física.
http://blogs.ft.com/beyond-brics/2010/11/11/panamericano-affair-turns-spotlight-on-brazils-credit-boom/
http://blogs.ft.com/beyond-brics/2010/08/12/consumer-defaults-on-the-rise-in-brazil/
8 de novembro de 2010
Presidente do Banco Mundial sugere o retorno ao padrão ouro
O cenário monetário e financeiro muda rapidamente com a crise. Não espere que ninguém venha explicar na grande mídia ou na televisão, mas líderes de Rússia, Arábia Saudita e China, países que controlam grandes reservas de investimentos e são credores líquidos, são recebidos com tapete vermelho na Europa, enquanto Obama concretizou sua liderança histórica barranco-abaixo, e os emissários americanos são atacados no G20 por suas tentativas de inflacionar o dólar de maneiras pouco convencionais. Temos uma rápida mudança na estrutura de poder.
Governos da periferia da Europa como o irlandês estão tendo grandes problemas para vender títulos sem pagar altas taxas de juros. 8% em um título Irlandês é, para eles, algo inimaginável. Isto nos dá um bom exemplo da resistência do Brasil à crise. A Europa se viciou no crédito fácil tanto quanto os EUA, mas agora tentam reorganizar as finanças públicas do jeito difícil, passando por uma fase de aperto e de reajuste econômico.
Já nos EUA a situação é desoladora. O que toma conta do pensamento econômico americano são os velhos conselhos Keynesianos. Os velhos erros fundamentais que partem de uma concepção errada dos processos econômicos e dão origem ao que se entende por macroeconomia. A macroeconomia é uma teoria em frangalhos, após todos os golpes que a realidade econômica lhe desferiu nas últimas décadas, e especialmente nesta crise.
Articulistas como Paul Krugman e DeLong, e em geral qualquer um de Princeton, Yale e demais departamentos econômicos fortemente keynesianos, recomendam do alto de suas torres-de-marfim uma estratégia que no longo prazo vai levar ao colapso do dólar e da américa. Já lavam as mãos desde já: se não funcionar, é porque os americanos não se jogaram de um penhasco alto o suficiente.
É uma grande pena que uma economia tão rica como a americana pereça como cobaia da pseudo-ciência Keynesiana. Estão estimulando a inflação porque acreditam no consumo como a mola propulsora da economia. Subcrevem àquela opinião imbecil de que na divisão global do trabalho cabe aos EUA o papel de se especializar em consumo, enquanto cabe ao resto do mundo, especialmente a China, competir para supri-los com capital, crédito e, principalmente, com os produtos que eles importam.
Agora eles querem tentar através de uma inflação de preços mais alta sabotar o reestabelecimento da poupança nos EUA, que rapidamente se recuperou por causa da crise. Os americanos tem cortado as dívidas, economizado, e isso vai contra os planos do Fed.
Só que desta maneira o capital do país continuará sendo dilapidado pelo consumo, como tem acontecido nas últimas décadas, e como naquela estória em que os trabalhadores da fazenda resolvem comer as vacas leiteiras para ver se a produção da fazenda aumenta. Só o que os Keynesianos enxergam são efeitos de curto-prazo. E no curto prazo, os QE's do Fed vão causar um retorno momentâneo à euforia pré-crise. Por quantos meses isto pode ser sustentado, não cabe perguntar.
Mas como a carruagem da economia mundial deve prosseguir, algumas vozes dissidentes tem se levantado contra aqueles cegos que dizem que 'não há nada de errado' com a macroeconomia ou com o sistema monetário. Uma nova declaração que me causou muita surpresa foi a do presidente do banco mundial, sugerindo que o ouro deveria ter um papel maior na estabilização do sistema monetário internacional.
http://www.ft.com/cms/s/0/e669c7dc-eb43-11df-811d-00144feab49a.html#axzz14ivBoA7r
Isto mesmo. Isto não é opinião de Peter Schiff, nem de Jim Rogers, Marc Faber ou outros analistas de sucesso, com grande experiência prática ou forte base austríaca. Vem de um presidente do banco mundial.
O maior medo dos Keynesianos é a deflação de preços. Eles vivem em um mundo econômico onde salários sempre sobem e nunca podem ser negociados. Isso na época de Keynes tinha uma certa razão de ser, com forte atuação de sindicatos. A desvalorização da moeda através da inflação é, neste esquema, uma trapaça que ajuda os preços a atingirem o valor correto.
Como escrevi em um post anterior, não consigo ver problema nenhum com o padrão ouro. Uma moeda com 6000 anos de uso certamente é mais estável do que a nossa moeda fiat com no máximo 200 anos de uso. Bancos e estados precisam de um laço forte com as possibilidades do mundo real, e a moeda fiat nos traz rápido crescimento de baixa qualidade, com sucessivas crises, maiores e piores.
Sob um padrão ouro a importação americana da China seria paga com ouro. Não há deficit, porque o ouro é a exportação americana para a China. Logo diriam que há uma 'fuga de ouro', e justamente por bater nestas amarras é que o padrão-ouro foi abandonado. A moral da estória é: estados precisam destas amarras. Você remover as amarras só torna o problema pior.
Com mais ouro a China naturalmente construiria um estoque de capital ao invés de um estoque de dívida pública americana. Emprestariam ao mundo com os juros mais baixos. Ou, se preferirem, guardariam estas pilhas de ouro sem ter retorno nenhum. Os preços nos EUA cairiam bastante, e a taxa de juros aumentaria, como deve ser. O contrário do que acontece no sistema monetário atual, onde quanto mais os EUA importa, mais abaixam as taxas de juros em dólar.
Os Keynesianos entendem o fluxo econômico como um ciclo. Mas é evidente a qualquer matemático ou engenheiro que este ciclo dos EUA com a China e os incentivos trocados nas taxas de juros constroem o que se chama de sistema de feedback positivo. O que isto causa em qualquer sistema, seja econômico, seja em um circuito eletrônico ou em uma manada de animais? Crise, imprevisibilidade, caos, colapso total.
Governos da periferia da Europa como o irlandês estão tendo grandes problemas para vender títulos sem pagar altas taxas de juros. 8% em um título Irlandês é, para eles, algo inimaginável. Isto nos dá um bom exemplo da resistência do Brasil à crise. A Europa se viciou no crédito fácil tanto quanto os EUA, mas agora tentam reorganizar as finanças públicas do jeito difícil, passando por uma fase de aperto e de reajuste econômico.
Já nos EUA a situação é desoladora. O que toma conta do pensamento econômico americano são os velhos conselhos Keynesianos. Os velhos erros fundamentais que partem de uma concepção errada dos processos econômicos e dão origem ao que se entende por macroeconomia. A macroeconomia é uma teoria em frangalhos, após todos os golpes que a realidade econômica lhe desferiu nas últimas décadas, e especialmente nesta crise.
Articulistas como Paul Krugman e DeLong, e em geral qualquer um de Princeton, Yale e demais departamentos econômicos fortemente keynesianos, recomendam do alto de suas torres-de-marfim uma estratégia que no longo prazo vai levar ao colapso do dólar e da américa. Já lavam as mãos desde já: se não funcionar, é porque os americanos não se jogaram de um penhasco alto o suficiente.
É uma grande pena que uma economia tão rica como a americana pereça como cobaia da pseudo-ciência Keynesiana. Estão estimulando a inflação porque acreditam no consumo como a mola propulsora da economia. Subcrevem àquela opinião imbecil de que na divisão global do trabalho cabe aos EUA o papel de se especializar em consumo, enquanto cabe ao resto do mundo, especialmente a China, competir para supri-los com capital, crédito e, principalmente, com os produtos que eles importam.
Agora eles querem tentar através de uma inflação de preços mais alta sabotar o reestabelecimento da poupança nos EUA, que rapidamente se recuperou por causa da crise. Os americanos tem cortado as dívidas, economizado, e isso vai contra os planos do Fed.
Só que desta maneira o capital do país continuará sendo dilapidado pelo consumo, como tem acontecido nas últimas décadas, e como naquela estória em que os trabalhadores da fazenda resolvem comer as vacas leiteiras para ver se a produção da fazenda aumenta. Só o que os Keynesianos enxergam são efeitos de curto-prazo. E no curto prazo, os QE's do Fed vão causar um retorno momentâneo à euforia pré-crise. Por quantos meses isto pode ser sustentado, não cabe perguntar.
Mas como a carruagem da economia mundial deve prosseguir, algumas vozes dissidentes tem se levantado contra aqueles cegos que dizem que 'não há nada de errado' com a macroeconomia ou com o sistema monetário. Uma nova declaração que me causou muita surpresa foi a do presidente do banco mundial, sugerindo que o ouro deveria ter um papel maior na estabilização do sistema monetário internacional.
http://www.ft.com/cms/s/0/e669c7dc-eb43-11df-811d-00144feab49a.html#axzz14ivBoA7r
Isto mesmo. Isto não é opinião de Peter Schiff, nem de Jim Rogers, Marc Faber ou outros analistas de sucesso, com grande experiência prática ou forte base austríaca. Vem de um presidente do banco mundial.
O maior medo dos Keynesianos é a deflação de preços. Eles vivem em um mundo econômico onde salários sempre sobem e nunca podem ser negociados. Isso na época de Keynes tinha uma certa razão de ser, com forte atuação de sindicatos. A desvalorização da moeda através da inflação é, neste esquema, uma trapaça que ajuda os preços a atingirem o valor correto.
Como escrevi em um post anterior, não consigo ver problema nenhum com o padrão ouro. Uma moeda com 6000 anos de uso certamente é mais estável do que a nossa moeda fiat com no máximo 200 anos de uso. Bancos e estados precisam de um laço forte com as possibilidades do mundo real, e a moeda fiat nos traz rápido crescimento de baixa qualidade, com sucessivas crises, maiores e piores.
Sob um padrão ouro a importação americana da China seria paga com ouro. Não há deficit, porque o ouro é a exportação americana para a China. Logo diriam que há uma 'fuga de ouro', e justamente por bater nestas amarras é que o padrão-ouro foi abandonado. A moral da estória é: estados precisam destas amarras. Você remover as amarras só torna o problema pior.
Com mais ouro a China naturalmente construiria um estoque de capital ao invés de um estoque de dívida pública americana. Emprestariam ao mundo com os juros mais baixos. Ou, se preferirem, guardariam estas pilhas de ouro sem ter retorno nenhum. Os preços nos EUA cairiam bastante, e a taxa de juros aumentaria, como deve ser. O contrário do que acontece no sistema monetário atual, onde quanto mais os EUA importa, mais abaixam as taxas de juros em dólar.
Os Keynesianos entendem o fluxo econômico como um ciclo. Mas é evidente a qualquer matemático ou engenheiro que este ciclo dos EUA com a China e os incentivos trocados nas taxas de juros constroem o que se chama de sistema de feedback positivo. O que isto causa em qualquer sistema, seja econômico, seja em um circuito eletrônico ou em uma manada de animais? Crise, imprevisibilidade, caos, colapso total.
5 de novembro de 2010
Depois de eleita a mulher do Lula, vem a conta
Depois da eleição vem a conta: governadores alinhados ao governo federal buscam ressussitar a CPMF. A arrecadação cresce, o governo gasta mais e mais. Para fazer frente às promessas eleitoreiras, tais como o aumento do salário mínimo, seguem pelo caminho que acreditam ser de menor resistência.
Notem que o PSDB adotou claramente a bem-sucedida estratégia petista de, quando confrontado com promessas feitas pelo PT, aumentar estas promessas. Com o PT se acostumando a ser dono da estrutura de governo por um período mais longo de tempo, há uma transição natural do comportamento de lobo para o de pastor de ovelhas, o que exige uma moderação fiscal maior. Já quem está fora do poder tem a vantagem de oferecer à população uma agenda irrealizável.
O salário mínimo impacta em cheio este que é o maior programa de distribuição de benefícios do Brasil : o 'bolsa-idoso', a concessão de pensões estatais de um salário mínimo sem contrapartidas, e com contínuos reajustes reais sendo oferecidos ao longo da última década. Há uma clara tendência de achatamento de aposentadorias dos que contribuíram ao sistema em direção ao salário mínimo. Ora, para receber um salário mínimo não precisavam ter contribuído nada. Imaginem o que esta mudança de comportamento representará em breve para as contas já bastante inviáveis do INSS.
Mas o salário mínimo é um dos principais motores de popularidade do governo Lulista, e é outra das bombas que este deixa para sua sucessora, junto com a inflação crescente (IGP-M acumulado em quase 8% ), a mudança do cenário externo, a deterioração da situação fiscal, resolvida com gambiarras não vistas desde a era Sarney.
Há também uma visível mudança de discurso oficial. Depois do discurso anestésico aplicado na população até as eleições, agora vem as autoridades alertar para o fato que há uma grave crise no mundo, que temos grandes desequilíbrios, temos um grande desafio cambial e fiscal. Vem chumbo grosso por aí, e eles mesmo já estão tentando acordar as suas ovelhas da hipnose.
Eu vejo basicamente dois cenários para o governo da mulher do Lula, até o retorno do Chefe ao poder. Na primeira hipótese, tudo continua no estilo do Chefe, e nada faz além de reformas pontuais que possibilitem empurrar com a barriga mais um pouquinho.
Um segundo cenário mais inesperado seria a realização de reformas impopulares e necessárias, porque sem estas reformas o brinquedo corre o risco de quebrar na mão do Chefe. Nesta hipótese, aparecerá o nome Dilma, que assim como Erenice será sacrificada pelo chefe, e entrará para a história como um dos governos mais odiados, justamente por ter feito todas as reformas impopulares absolutamente necessárias ao país e ao domínio petista por mais uma década. A população, sem entender patavina, poderia culpar Dilma e ... votar em Lula.
Dependendo do que eles fizerem com a CPMF, taxa de juros, e com os aumentos de salário mínimo, já vai dar para ver qual caminho desejam seguir.
Notem que o PSDB adotou claramente a bem-sucedida estratégia petista de, quando confrontado com promessas feitas pelo PT, aumentar estas promessas. Com o PT se acostumando a ser dono da estrutura de governo por um período mais longo de tempo, há uma transição natural do comportamento de lobo para o de pastor de ovelhas, o que exige uma moderação fiscal maior. Já quem está fora do poder tem a vantagem de oferecer à população uma agenda irrealizável.
O salário mínimo impacta em cheio este que é o maior programa de distribuição de benefícios do Brasil : o 'bolsa-idoso', a concessão de pensões estatais de um salário mínimo sem contrapartidas, e com contínuos reajustes reais sendo oferecidos ao longo da última década. Há uma clara tendência de achatamento de aposentadorias dos que contribuíram ao sistema em direção ao salário mínimo. Ora, para receber um salário mínimo não precisavam ter contribuído nada. Imaginem o que esta mudança de comportamento representará em breve para as contas já bastante inviáveis do INSS.
Mas o salário mínimo é um dos principais motores de popularidade do governo Lulista, e é outra das bombas que este deixa para sua sucessora, junto com a inflação crescente (IGP-M acumulado em quase 8% ), a mudança do cenário externo, a deterioração da situação fiscal, resolvida com gambiarras não vistas desde a era Sarney.
Há também uma visível mudança de discurso oficial. Depois do discurso anestésico aplicado na população até as eleições, agora vem as autoridades alertar para o fato que há uma grave crise no mundo, que temos grandes desequilíbrios, temos um grande desafio cambial e fiscal. Vem chumbo grosso por aí, e eles mesmo já estão tentando acordar as suas ovelhas da hipnose.
Eu vejo basicamente dois cenários para o governo da mulher do Lula, até o retorno do Chefe ao poder. Na primeira hipótese, tudo continua no estilo do Chefe, e nada faz além de reformas pontuais que possibilitem empurrar com a barriga mais um pouquinho.
Um segundo cenário mais inesperado seria a realização de reformas impopulares e necessárias, porque sem estas reformas o brinquedo corre o risco de quebrar na mão do Chefe. Nesta hipótese, aparecerá o nome Dilma, que assim como Erenice será sacrificada pelo chefe, e entrará para a história como um dos governos mais odiados, justamente por ter feito todas as reformas impopulares absolutamente necessárias ao país e ao domínio petista por mais uma década. A população, sem entender patavina, poderia culpar Dilma e ... votar em Lula.
Dependendo do que eles fizerem com a CPMF, taxa de juros, e com os aumentos de salário mínimo, já vai dar para ver qual caminho desejam seguir.
29 de outubro de 2010
MEC censura livro de Monteiro Lobato
http://blogs.estadao.com.br/marcos-guterman/quem-tem-medo-de-pedrinho/
Como com certeza os técnicos em engenharia social do MEC vão substituir o gigante Lobato por algum pigmeu do agrado deles, estou dando a minha contribuição à educação nacional traduzindo este texto de 'Politically Correct Bedtime Stories', James Finn Garner.
Era uma vez uma pessoa jovem chamada Chapeuzinho Vermelho que vivia com sua mãe na beira de uma grande floresta. Um dia sua mãe lhe pediu que levasse um cesto de frutas frescas e água mineral para a casa de sua avó - não por isto ser uma tarefa doméstica historicamente associada a uma pessoa feminina, mas sim movida por um genuíno sentimento de generosidade, e porque embutiria em sua filha sentimentos comunitários. Além do mais, sua avó NÃO ESTAVA doente, mas sim em plena condição física e mental, plenamente capaz de tomar conta de si mesma, enquanto adulto da terceira-idade.
Então Chapeuzinho saiu com sua cesta para a floresta. Muitos acreditavam que a floresta fosse um lugar impenetrável e perigoso, e nunca botaram os pés lá. Chapeuzinho, por outro lado, estava consciente de sua sexualidade em flor e não se intimidava com estas óbvias alegorias Freudianas.
No caminho para a casa da avó, Chapeuzinho foi abordada por um lobo, que perguntou o que havia no cesto. Ela respondeu: 'alguns lanches saudáveis para a minha avó, que com certeza é bem capaz de cuidar de si mesma enquanto adulto da terceira-idade. '
O lobo disse: "Minha querida, você não sabe que não é seguro para uma garotinha andar por aqui sozinha?"
Chapeuzinho disse: "Considero sua observação sexista e ofensiva ao extremo, mas vou ignorá-la por causa do seu status tradicional de marginalizado pela sociedade, o que certamente lhe causa muito estresse e lhe obriga a formar uma visão de mundo bastante distinta da minha, atitude inteiramente natural. Mas, se me permite, devo continuar meu caminho.
Chapeuzinho continuou caminhando pelo caminho principal. Mas por causa de seu status marginalizado perante a sociedade, o lobo não se restringia aos esquemas lineares automáticos do pensamento ocidental, e encontrou um caminho mais rápido até a casa da vovó. Ele invadiu a casa e comeu a vovó, uma linha de ação válida para um carnívoro como ele. Então, não se intimidando com a rígida divisão tradicional entre gêneros femininos e masculinos, vestiu os pijamas da vovó e se arrastou para a cama...
Chapeuzinho entrou na cabana e disse: "vovó, lhe trouxe uns lanchinhos orgânicos, sem gordura e livres de aditivos químicos, para saudá-la como sábia e encorajadora matriarca que é".
Da cama o lobo disse de mansinho, "chegue mais perto, criança, para que eu possa ver".
Chapeuzinho explamou "Oh, havia me esquecido que a vovó é mais portadora de deficiência visual do que um morcego! Vovó, mas que olhos grandes a senhora tem!"
"Eles já viram muitas coisas e perdoaram muito, minha querida."
"Vovó, mas que nariz grande a senhora tem, relativamente, é claro, e certamente atraente à sua maneira".
"Já cheirou muitas coisas e também perdoou muito, minha querida."
"Vovó, que dentes grandes a senhora tem!"
E o lobo disse "Estou muito satisfeito com o que sou e com quem sou", e pulou da cama, pulando em Chapeuzinho com suas garras, pronto para devorá-la. Chapeuzinho gritou, não porque estivesse assustada com sua aparente tendência à prática do 'cross-dressing', perfeitamente tolerável, mas por este ter completamente violado seu espaço pessoal.
Seus gritos foram ouvidos por um profissional cortador de madeira ( ou técnico em celulose renovável, como preferia ser chamado ). Quando este pulou para dentro da casa, avistou a cena e tentou intervir. Mas quando este levantou seu machado, tanto o lobo quanto Chapeuzinho ficaram imóveis.
"E o que você pensa que está fazendo?", perguntou Chapeuzinho.
O cortador de madeira piscou os olhos, e não conseguiu buscar palavras.
"Entrando aqui como um Neandertal, balançando esta arma de um lado para outro, como se ela fosse pensar para você?", exclamou. "Sexista! Racista! Como ousa assumir que uma jovem mulher e um lobo selvagem não possam resolver seus conflitos sem a ajuda de um homem?"
Emocionada com a fala vibrante de Chapeuzinho, a vovó pulou para fora da boca do lobo, pegou o machado do cortou de um lance a cabeça do homem. Depois destes exaustivos trabalhos, Chapeuzinho, Vovó e o lobo sentiram com satisfação que tinham atingido um propósito comum. Decidiram instalar uma comunidade alternativa baseada em cooperação e entendimento mútuo, e agora moram juntos na floresta, felizes para sempre.
Como com certeza os técnicos em engenharia social do MEC vão substituir o gigante Lobato por algum pigmeu do agrado deles, estou dando a minha contribuição à educação nacional traduzindo este texto de 'Politically Correct Bedtime Stories', James Finn Garner.
Era uma vez uma pessoa jovem chamada Chapeuzinho Vermelho que vivia com sua mãe na beira de uma grande floresta. Um dia sua mãe lhe pediu que levasse um cesto de frutas frescas e água mineral para a casa de sua avó - não por isto ser uma tarefa doméstica historicamente associada a uma pessoa feminina, mas sim movida por um genuíno sentimento de generosidade, e porque embutiria em sua filha sentimentos comunitários. Além do mais, sua avó NÃO ESTAVA doente, mas sim em plena condição física e mental, plenamente capaz de tomar conta de si mesma, enquanto adulto da terceira-idade.
Então Chapeuzinho saiu com sua cesta para a floresta. Muitos acreditavam que a floresta fosse um lugar impenetrável e perigoso, e nunca botaram os pés lá. Chapeuzinho, por outro lado, estava consciente de sua sexualidade em flor e não se intimidava com estas óbvias alegorias Freudianas.
No caminho para a casa da avó, Chapeuzinho foi abordada por um lobo, que perguntou o que havia no cesto. Ela respondeu: 'alguns lanches saudáveis para a minha avó, que com certeza é bem capaz de cuidar de si mesma enquanto adulto da terceira-idade. '
O lobo disse: "Minha querida, você não sabe que não é seguro para uma garotinha andar por aqui sozinha?"
Chapeuzinho disse: "Considero sua observação sexista e ofensiva ao extremo, mas vou ignorá-la por causa do seu status tradicional de marginalizado pela sociedade, o que certamente lhe causa muito estresse e lhe obriga a formar uma visão de mundo bastante distinta da minha, atitude inteiramente natural. Mas, se me permite, devo continuar meu caminho.
Chapeuzinho continuou caminhando pelo caminho principal. Mas por causa de seu status marginalizado perante a sociedade, o lobo não se restringia aos esquemas lineares automáticos do pensamento ocidental, e encontrou um caminho mais rápido até a casa da vovó. Ele invadiu a casa e comeu a vovó, uma linha de ação válida para um carnívoro como ele. Então, não se intimidando com a rígida divisão tradicional entre gêneros femininos e masculinos, vestiu os pijamas da vovó e se arrastou para a cama...
Chapeuzinho entrou na cabana e disse: "vovó, lhe trouxe uns lanchinhos orgânicos, sem gordura e livres de aditivos químicos, para saudá-la como sábia e encorajadora matriarca que é".
Da cama o lobo disse de mansinho, "chegue mais perto, criança, para que eu possa ver".
Chapeuzinho explamou "Oh, havia me esquecido que a vovó é mais portadora de deficiência visual do que um morcego! Vovó, mas que olhos grandes a senhora tem!"
"Eles já viram muitas coisas e perdoaram muito, minha querida."
"Vovó, mas que nariz grande a senhora tem, relativamente, é claro, e certamente atraente à sua maneira".
"Já cheirou muitas coisas e também perdoou muito, minha querida."
"Vovó, que dentes grandes a senhora tem!"
E o lobo disse "Estou muito satisfeito com o que sou e com quem sou", e pulou da cama, pulando em Chapeuzinho com suas garras, pronto para devorá-la. Chapeuzinho gritou, não porque estivesse assustada com sua aparente tendência à prática do 'cross-dressing', perfeitamente tolerável, mas por este ter completamente violado seu espaço pessoal.
Seus gritos foram ouvidos por um profissional cortador de madeira ( ou técnico em celulose renovável, como preferia ser chamado ). Quando este pulou para dentro da casa, avistou a cena e tentou intervir. Mas quando este levantou seu machado, tanto o lobo quanto Chapeuzinho ficaram imóveis.
"E o que você pensa que está fazendo?", perguntou Chapeuzinho.
O cortador de madeira piscou os olhos, e não conseguiu buscar palavras.
"Entrando aqui como um Neandertal, balançando esta arma de um lado para outro, como se ela fosse pensar para você?", exclamou. "Sexista! Racista! Como ousa assumir que uma jovem mulher e um lobo selvagem não possam resolver seus conflitos sem a ajuda de um homem?"
Emocionada com a fala vibrante de Chapeuzinho, a vovó pulou para fora da boca do lobo, pegou o machado do cortou de um lance a cabeça do homem. Depois destes exaustivos trabalhos, Chapeuzinho, Vovó e o lobo sentiram com satisfação que tinham atingido um propósito comum. Decidiram instalar uma comunidade alternativa baseada em cooperação e entendimento mútuo, e agora moram juntos na floresta, felizes para sempre.
28 de outubro de 2010
Qual era mesmo o problema com commodity-money?
Quanto mais eu leio sobre a confusão em que o mundo se meteu graças ao distorcido sistema monetário, com centenas de moedas fiat cada uma controlada por seu banco central, mais me pergunto qual era, afinal, o problema com o uso de uma commodity como o ouro como moeda global.
Pegando o caso americano e chinês, por exemplo.
A expansão industrial na China resulta em produtos baratos nos EUA. Os americanos compram estes produtos e caso estivéssemos no padrão ouro não haveria acúmulo nenhum de déficits de um lado e reservas do outro. Não. Eles pagariam em metal, que pode ser usado do mesmo modo como moeda na China, nos EUA, ou aonde os chineses quiserem. A transação é saldada na hora.
Aí por ter menos produtos e mais ouro no mercado, os preços naturalmente sobem na China, e por ter mais produtos e menos ouro, os preços caem nos EUA.
Como há mais ouro na China, as taxas de juros caem por lá, considerando outros fatores os mesmos.
Como há menos ouro nos EUA, as taxas de juros sobem por lá.
Esta situação gera um equilíbrio natural. Com preços mais baratos e maiores taxas de juros, os EUA vão atrair investimentos chineses, caso não seja mais interessante investir estes recursos na China, e também vão exportar mais. Aí naturalmente tudo se equilibra.
Pegando o caso americano e chinês, por exemplo.
A expansão industrial na China resulta em produtos baratos nos EUA. Os americanos compram estes produtos e caso estivéssemos no padrão ouro não haveria acúmulo nenhum de déficits de um lado e reservas do outro. Não. Eles pagariam em metal, que pode ser usado do mesmo modo como moeda na China, nos EUA, ou aonde os chineses quiserem. A transação é saldada na hora.
Aí por ter menos produtos e mais ouro no mercado, os preços naturalmente sobem na China, e por ter mais produtos e menos ouro, os preços caem nos EUA.
Como há mais ouro na China, as taxas de juros caem por lá, considerando outros fatores os mesmos.
Como há menos ouro nos EUA, as taxas de juros sobem por lá.
Esta situação gera um equilíbrio natural. Com preços mais baratos e maiores taxas de juros, os EUA vão atrair investimentos chineses, caso não seja mais interessante investir estes recursos na China, e também vão exportar mais. Aí naturalmente tudo se equilibra.
27 de outubro de 2010
Morte de Kirchner causa desconfortável euforia no mercado
O ex-presidente Nestor Kirchner, que dominava a política do país através de sua esposa, teve um ataque cardíaco e faleceu. Ele escondia sua condição médica para evitar uma perda de poder em seu partido.
Ele e a esposa desde que se instalaram no poder levaram consigo um grupo de amigos da Patagônia para os cargos mais importantes da república argentina, e é conhecida a polarização e os conflitos causados pelas atitudes dos 'pinguins' no governo. O país foi sustentado economicamente pelos altos preços das commodities que produz, e assim se levitou mesmo sob uma crescente deterioração política e econômica, que inclui confisco de reservas, confisco de pensões privadas, uso de sindicatos para intimidação física de adversários.
Não sei qual é a reação do povo argentino. Provavelmente se dividam entre os que amam a família Kirchner e entre os que os detestam. Entre os votos de condolências de uns e dos outros, o fato desconfortável é que as ações e os títulos da Argentina tiveram uma acentuada valorização no exterior após as notícias de sua morte. Os mercados na Argentina estão fechados.
Parece ser um daqueles raros casos de líderes políticos que dão mais contribuições à sociedade estando mortos do que quando estavam vivos. Um obituário nada bonito. Vão certamente 'acusar os mercados', aquele esporte tão inútil quanto discutir com o vento, mas o fato é que o seu legado foi um de conflito e impedimento ao desenvolvimento econômico do país, e mesmo com a incerteza que decorre de sua morte, as expectativas são mais positivas do que negativas.
http://blogs.estadao.com.br/radar-economico/2010/10/27/banco-ve-%E2%80%98euforia%E2%80%99-no-mercado-apos-morte-de-kirchner/
Ele e a esposa desde que se instalaram no poder levaram consigo um grupo de amigos da Patagônia para os cargos mais importantes da república argentina, e é conhecida a polarização e os conflitos causados pelas atitudes dos 'pinguins' no governo. O país foi sustentado economicamente pelos altos preços das commodities que produz, e assim se levitou mesmo sob uma crescente deterioração política e econômica, que inclui confisco de reservas, confisco de pensões privadas, uso de sindicatos para intimidação física de adversários.
Não sei qual é a reação do povo argentino. Provavelmente se dividam entre os que amam a família Kirchner e entre os que os detestam. Entre os votos de condolências de uns e dos outros, o fato desconfortável é que as ações e os títulos da Argentina tiveram uma acentuada valorização no exterior após as notícias de sua morte. Os mercados na Argentina estão fechados.
Parece ser um daqueles raros casos de líderes políticos que dão mais contribuições à sociedade estando mortos do que quando estavam vivos. Um obituário nada bonito. Vão certamente 'acusar os mercados', aquele esporte tão inútil quanto discutir com o vento, mas o fato é que o seu legado foi um de conflito e impedimento ao desenvolvimento econômico do país, e mesmo com a incerteza que decorre de sua morte, as expectativas são mais positivas do que negativas.
http://blogs.estadao.com.br/radar-economico/2010/10/27/banco-ve-%E2%80%98euforia%E2%80%99-no-mercado-apos-morte-de-kirchner/
26 de outubro de 2010
A arte de afogar bilhetes premiados
No fraco debate de ontem a candidata oficial veio com um discurso bastante populista e perigoso de 'bilhete premiado' do pré-sal, que é um dos grandes sonhos que o mercador Lula tentou vender à população.
É o sonho do eleitorado dele: nunca mais precisar trabalhar duro e viver como um Sheik árabe - ou pelo menos como um apaniguado do Sheik. Ou, se não der, pelo menos como o cachorro do Sheik. Parece ser essa o anseio popular bem captado pela antena presidencial.
Em primeiro lugar, gostaria de dizer que esta reserva é algo bastante real. Mas daí a comparar com bilhete de loteria é um pouco demais. Só se for um bilhete de loteria a 8000 metros de profundidade.
Quem vai tirar este bilhete de lá certamente não vão ser os 1000 jornalistas contratados pelo PT e nem os programas sociais da empresa. Esta retórica é perigosa. Pode acabar com a empresa.
A politização do petróleo é auto-destrutiva. A santificação da Petrobrás não serve nem aos próprios interesses da empresa. Há sempre riscos.
Entretanto o governo e os políticos tratam uma reserva de petróleo cheia de incertezas como um bilhete premiado, e isso desvaloriza o trabalho extremamente técnico das empresas e dos profissionais da área de petróleo.
Esperamos que não aconteçam erros nem acidentes como o do afundamento da plataforma P34. Pois o que diriam para o 'povo brasileiro' se der um mega acidente e o bilhete premiado vazar para as nossas praias? Ah.. não tinha plano B? Tavez venham com aquela clássica frase 'isto cheira a sabotagem'.
O PT acha que agora o país pode se dar ao luxo de ser arrogante, manipular investidores nacionais e estrangeiros, esbanjar oportunidades e queimar pontes.
O acionista da Petrobrás já notou o efeito disso nos últimos meses. Já nós vamos ver o custo de todas a bravataria lá pra frente quando os ventos externos eventualmente soprarem contra a nossa economia.
É o sonho do eleitorado dele: nunca mais precisar trabalhar duro e viver como um Sheik árabe - ou pelo menos como um apaniguado do Sheik. Ou, se não der, pelo menos como o cachorro do Sheik. Parece ser essa o anseio popular bem captado pela antena presidencial.
Em primeiro lugar, gostaria de dizer que esta reserva é algo bastante real. Mas daí a comparar com bilhete de loteria é um pouco demais. Só se for um bilhete de loteria a 8000 metros de profundidade.
Quem vai tirar este bilhete de lá certamente não vão ser os 1000 jornalistas contratados pelo PT e nem os programas sociais da empresa. Esta retórica é perigosa. Pode acabar com a empresa.
A politização do petróleo é auto-destrutiva. A santificação da Petrobrás não serve nem aos próprios interesses da empresa. Há sempre riscos.
Entretanto o governo e os políticos tratam uma reserva de petróleo cheia de incertezas como um bilhete premiado, e isso desvaloriza o trabalho extremamente técnico das empresas e dos profissionais da área de petróleo.
Esperamos que não aconteçam erros nem acidentes como o do afundamento da plataforma P34. Pois o que diriam para o 'povo brasileiro' se der um mega acidente e o bilhete premiado vazar para as nossas praias? Ah.. não tinha plano B? Tavez venham com aquela clássica frase 'isto cheira a sabotagem'.
O PT acha que agora o país pode se dar ao luxo de ser arrogante, manipular investidores nacionais e estrangeiros, esbanjar oportunidades e queimar pontes.
O acionista da Petrobrás já notou o efeito disso nos últimos meses. Já nós vamos ver o custo de todas a bravataria lá pra frente quando os ventos externos eventualmente soprarem contra a nossa economia.
23 de outubro de 2010
Sobre o vazamento de documentos do Wikileaks
Está gerando uma repercussão internacional enorme o último vazamento de documentos sigilosos do exército americano sobre a guerra do Iraque. O que se revela à primeira vista é o forte controle de informação, tais como o altíssimo nível de baixas civis e de tortura. Por outro lado, foi confirmada a forte influência iraniana no suporte de milícias xiitas no Iraque, e bem dizer em toda a região, coisa que era tratada como mais uma conspiração americana, mas que é um risco extremamente real no oriente médio, como podemos ver pelas grandes compras de armas feita pela Arábia Saudita, entre outros indícios.
Podemos ter uma idéia de como funciona a guerra na prática assistindo ao chocante vídeo, também vazado pelo Wikileaks, que mostra soldados assustados e despreparados 'jogando videogame' com vidas de verdade.
Será que mudou a guerra? O que mudou é a tecnologia.
A tecnologia que possibilita esta nova liberdade de informação sem limites está tornando cada vez mais difícil a tarefa de esconder informações, manipular e manter segredos, e o próprio conceito de um exército nacional participando de uma agressão militar se inviabiliza perante a possibilidade que um dos próprios oficiais possa estar vazando para a internet.
A diferença entre isto e a espionagem clássica, que sempre existiu, é enorme. Cada vez mais as guerras se travam no nível da informação e propaganda.
Podemos ter uma idéia de como funciona a guerra na prática assistindo ao chocante vídeo, também vazado pelo Wikileaks, que mostra soldados assustados e despreparados 'jogando videogame' com vidas de verdade.
Será que mudou a guerra? O que mudou é a tecnologia.
A tecnologia que possibilita esta nova liberdade de informação sem limites está tornando cada vez mais difícil a tarefa de esconder informações, manipular e manter segredos, e o próprio conceito de um exército nacional participando de uma agressão militar se inviabiliza perante a possibilidade que um dos próprios oficiais possa estar vazando para a internet.
A diferença entre isto e a espionagem clássica, que sempre existiu, é enorme. Cada vez mais as guerras se travam no nível da informação e propaganda.
19 de outubro de 2010
Os jovens franceses preferem investir no futuro dos velhos
Estudantes em toda parte do mundo são um importante recurso político na mão de partidos radicais. Eles se resumem a uma coisa: massa de manobra.
Não estudam, não entendem nada, não são capazes de ver que são precisamente o grupo mais prejudicado pelo sistema atual de pensões, baseado na lógica atuarial do esquema de Ponzi.
O abundante tempo livre e a enorme carga de testosterona destes jovens é capitalizada pela esquerda francesa há décadas.
Mas melhor ainda do que estudantes são sindicatos-chave que podem parar o país como estamos vendo. Este é a grande vantagem de controlar o movimento sindical.
Há um lado confuso de protesto, mas principalmente o que vemos são táticas de uso da força por parte de partidos organizados, para atingir objetivos políticos.
Obviamente se eles estivessem no governo, assim como Sarkozy e o nosso Lula, estariam também aumentando a idade mínima, para ‘defender o resgate do cidadão sênior no mercado de trabalho’, lutando pelo 'direito ao trabalho na terceira idade' e outras ensaboações análogas.
Aí os estudantes e os sindicatos iam achar lindo.
Mas a razão, desconfortável e verdadeira, é que essa conta não fecha.
Não estudam, não entendem nada, não são capazes de ver que são precisamente o grupo mais prejudicado pelo sistema atual de pensões, baseado na lógica atuarial do esquema de Ponzi.
O abundante tempo livre e a enorme carga de testosterona destes jovens é capitalizada pela esquerda francesa há décadas.
Mas melhor ainda do que estudantes são sindicatos-chave que podem parar o país como estamos vendo. Este é a grande vantagem de controlar o movimento sindical.
Há um lado confuso de protesto, mas principalmente o que vemos são táticas de uso da força por parte de partidos organizados, para atingir objetivos políticos.
Obviamente se eles estivessem no governo, assim como Sarkozy e o nosso Lula, estariam também aumentando a idade mínima, para ‘defender o resgate do cidadão sênior no mercado de trabalho’, lutando pelo 'direito ao trabalho na terceira idade' e outras ensaboações análogas.
Aí os estudantes e os sindicatos iam achar lindo.
Mas a razão, desconfortável e verdadeira, é que essa conta não fecha.
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